Governo pode liberar hoje milho resistente a 2,4-D

As empresas de biotecnologia prometeram que a adoção de sementes transgênicas reduziria o uso de agrotóxicos. Mas poucos anos depois de sua liberação o Brasil passou a ser o país que mais usa venenos agrícolas no mundo. A Monsanto explorou sozinha por mais de 10 anos o mercado de soja resistente a herbicida. Agora, outras multinacionais brigam para entrar no jogo. Alegam oferecer alternativas ao sistema Rondup Ready, cada uma querendo vender seu próprio pacote de agrotóxico e sementes patenteadas. É o caso da Bayer com o glufosinato de amônio (sistema Liberty Link), a BASF-Embrapa com a imidazolinona (sistema Cultivance) e a DOW com o tóxico 2,4-D, componente do Agente Laranja usado na guerra do Vietnã. As duas primeiras já foram liberadas pela CTNBio – Comissão Técnica Nacional de Biossegurança mas ainda não estão sendo cultivadas. A variedade da DOW será votada nesta quinta dia 5.

 Mais transgênicos, mais agrotóxicos

Na Argentina, após a liberação da soja transgênica, o volume de glifosato aplicado cresceu 380% [1]. Nos EUA, o uso de glifosato na soja RR aumentou de 0,77 para 1,75 kg/ha entre 1996 e 2011 [2]. No Brasil, esse volume foi multiplicado por 6 também depois da liberação da soja transgênica. Efeitos similares são esperados caso sejam liberadas variedades resistentes a 2,4-D. As vendas de agrotóxicos movimentaram quase US$ 8,5 bilhões no Brasil em 2011 – o dobro do apurado em 2005. Esse expressivo aumento aconteceu no mesmo período em que o cultivo de transgênicos deu seu grande salto no país [3].

Quanto resíduo de 2,4-D no grão de soja?

A empresa alega que não haverá resíduo nenhum, mas os dados apresentados estão em relatório não publicado e são baseados em estudos realizados em um único ano e em parcelas sem repetição. Não foram analisados os resíduos que podem ficar no grão quando foram aplicados tanto o 2,4-D quanto o glufosinato de amônio, já que a planta é resistente aos dois produtos. O 2,4-D controla apenas dicotiledôenas (folha larga).

Países em que o 2,4-D foi proibido

O herbicida é proibido no Dinamarca, na Suécia e na Noruega (desde 1997). Proibido também para uso em ambientes públicos em vários estados do Canada (Quebec, desde 2006, Newfoundland e Labrador, e Nova Scotia). Em 2008, o Natural Resources Defense Council solicitou ao Governo dos EUA o banimento do 2,4-D (NRDC, 2012). O Genok, centro de estudo em biossegurança da Noruega, fiz parecer contrario para liberação comercial (importação para alimentação humana e animal) da soja tolerante ao 2,4-D em processo de avaliação no Brasil (Genok, 2011). O Centro de Biossegurança da África (ACB) também criticou a decisão do Governo da África do Sul em liberar comercialmente a importação de milho tolerante ao 2,4-D para a alimentação humana e animal naquele país (ACB, 2012).

Glufosinato de amônio

Estudos já mostraram que esse herbicida afeta negativamente o sistema cardiovascular, nervoso e reprodutivo de roedores e mamíferos. Em 2009 o Parlamento Europeu votou seu banimento junto com outros 21 agrotóxicos classificados como carcinogênico, mutagênico ou tóxico para a reprodução. O uso de glufosinato será banido completamente da União Europeia até 2017. Fato que só reforça o fato de que as multinacionais olham para o Brasil como destino de seus produtos mais tóxicos.

Em resumo:

–        Crescimento do número de espécies de plantas espontâneas que desenvolveram resistência ao glifosato tem aberto espaço para outras empresas lançarem sementes resistentes a seus próprios agrotóxicos.

–        A DOW AgroSciences está tentando liberar soja e milho transgênicos resistentes ao 2,4-D e ao glufosinato de amônio, tanto no Brasil como nos EUA.

–        O 2,4-D foi usado no agente laranja na guerra do Vietnã e uma vez no ambiente libera dioxinas, que são compostos cancerígenos.

–        Esses produtos são da classe toxicológica I, isto é, extremamente tóxicos.

–        Há estimativas de que a liberação dessas sementes aumentará em 30 vezes o uso desse herbicida, multiplicando a contaminação ambiental e dos alimentos.

–        Estudos mostram uma associação entre o 2,4-D e a ocorrência de linfômas Hodgkin, que são uma espécie de câncer das células brancas, responsáveis pela imunidade do organismo.

–        Os herbicidas à base de 2,4-D volatilizam e se dispersam por longas distâncias, afetando drasticamente plantações vizinhas, como no caso dos parrerais.

–        A DOW está solicitando no Brasil registro do 2,4-D para aplicação em pós-emergência, mas não informa no pedido de liberação da soja qual será o limite máximo de resíduo nem o intervalo de carência entre a aplicação do produto e sua colheita. Mesmo assim, nos estudos apresentados alega que não haverá nenhum resíduo nos grãos colhidos mesmo com 4 aplicações. Também não apresenta dados sobre os níveis de resíduos quando ambos 2,4-D e glufosinato são aplicados na lavoura.

–        Os estudos sobre segurança alimentar dessa soja transgênica foram feitos fora do Brasil pela própria DOW, não foram publicados e não são apresentados na íntegra.

–        As avaliações toxicológicas e farmacológicas foram feitas por apenas 15 dias em animais de laboratórios e mesmo assim os estudos originais não foram publicados e não são apresentados.

–        Se liberada no Brasil, ajudará a puxar a fila de pacotes “semente + agrotóxicos” de outras empresas, com produtos como glufosinato de amônio, HPPD, dicamba, isoxaflutole, callisto, imidazolinonas, entre outros.

–        Se liberada no Brasil, tudo indica que posteriormente seguirá o mesmo caminho na Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia.

 

[1]    Soybean Production in the Southern Cone of the Americas: update on land and pesticide use. (2012) . Disponível em: http://bit.ly/Om8UPm

 

[2]    The Good, the Bad and the Ugly: impacts of GE crops in the US. Benbrook, C., 2012. Disponível em: http://bit.ly/S0RazE

 

[3]    Teixeira, G. Uso de defensivos é intensificado no Brasil. Valor Econômico, 30/07/2012. Disponível em: http://pratoslimpos.org.br/?p=4532

 

 

 

 

 



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