‘Indústria nega as evidências científicas’, diz especialista sobre efeito cancerígeno de agrotóxico

por Sérgio Matsuura, d’O Globo

RIO – Toxicologista do Instituto Nacional de Câncer (Inca), Marcia Sarpa compara a batalha contra o uso de agrotóxicos à luta contra a indústria do tabaco, no passado. Leia os principais trechos da entrevista.

Se os estudos demonstram a relação entre o glifosato e o câncer, por que o uso ainda é liberado?

O glifosato é o agrotóxico mais utilizado no Brasil, principalmente nas lavouras de soja e milho com sementes transgênicas. As fabricantes ganham vendendo a semente e o agrotóxico. Imagine o quanto elas faturam. Por questões econômicas, ele continua no mercado. É parecido com o que aconteceu com a indústria do tabaco, até o último momento ela negava que o cigarro causa câncer. A indústria de agrotóxicos faz a mesma coisa, negando as evidências científicas e tentando denegrir a imagem dos pesquisadores.

Os agrotóxicos usados nas lavouras chegam até os consumidores?

Análises realizadas pela Anvisa indicam que sim. As últimas edições do monitoramento da agência indicam resíduos acima do limite permitido nos alimentos. E essa não é a nossa única forma de contato, quando os agrotóxicos são pulverizados eles contaminam fontes de água. E não é só o glifosato. O 2-4D, o segundo agrotóxico mais utilizado no Brasil, também foi considerado cancerígeno pela Iarc.

Mas existem evidências de incidência de câncer nos consumidores?

Ainda não existem estudos específicos sobre isso. O que temos são pesquisas com a exposição de alimentos com determinadas quantidades de agrotóxico em animais de laboratório, mimetizando o que aconteceria com o ser humano. E os resultados indicam os efeitos tóxicos.

E como evitar essa exposição?

O ideal é o consumo de orgânicos, mas nem sempre é possível. Então, pedimos a redução dos agrotóxicos. Apesar de terem efeitos tóxicos, são usados em quantidade maior que a necessária para fins agronômicos. Mas de maneira alguma deve-se abandonar o consumo de frutas, legumes e verduras, porque têm propriedades anticancerígenas. E não dá para garantir que produtos industrializados estejam livres dos agrotóxicos.


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