Questão sobre agrotóxicos em vestibular suscita reflexões sobre o tema

Por José Coutinho Júnior, da Página do MST

A segunda fase do vestibular da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), ocorrida do dia 6 a 8 de janeiro, teve em sua prova de História e Geografia uma questão pautando o tema dos agrotóxicos.

A questão, que foi baseada em um artigo da professora Larissa Bombardi sobre o tema, exigiu dos candidatos uma reflexão sobre como os agrotóxicos afetam a produção agrícola brasileira, o papel das empresas transnacionais na agricultura e seus impactos na natureza e na saúde humana. 

A reportagem procurou dois especialistas no assunto, que pudessem não só responder a questão pela ótica dos movimentos sociais, mas aprofundar o debate sobre o uso dos agrotóxicos no país.

Leia abaixo a pergunta, as respostas e comentários:

Considere as afirmações I, II e III.

I: Há dois elementos fundamentais na agricultura que a diferem da indústria: o primeiro deles é o tempo da natureza.

II: Em 2009, o Brasil alcançou o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos.

III: Ressalte-se que 92% da receita líquida gerada pelas indústrias fabricantes de agrotóxicos em 2010 ficaram com apenas seis grandes empresas de capital estrangeiro.

a) Analise a afirmação II, considerando a afirmação I.

b) Qual o processo a que se refere a afirmação III? Explique.

c) Indique dois impactos socioambientais decorrentes do uso de agrotóxicos.

 

Respostas: 

Cléber Folgado – Dirigente Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e Coordenador Operativo da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Resposta para questão A:

A afirmação de que em 2009 o Brasil alcançou o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos é errada: isso se deu, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Agrícola –Sindag, no ano de 2008, quando nosso país alcançou a marca dos 700 milhões de litros de agrotóxicos legalmente comercializados.

Na agricultura é importante considerar o tempo da natureza, e considerando o uso de agrotóxicos, tem-se construído um ciclo vicioso de uso de insumos químicos na agricultura, na medida em que os venenos são jogados nas lavouras, desequilíbrios ambientais são causados o que por sua vez gera a proliferação de “pragas” e a infertilidade da terra exigindo maior uso de insumos. Dessa forma para manter os níveis de produção são necessários mais insumos químicos que não resolvem o problema, apenas conseguem servir como medida paliativa, gerando assim o ciclo vicioso.

Em médio e longo prazos, essa relação de superexploração dos recursos naturais, em especial da terra, com base no uso de agrotóxicos, extrapola o limite e o tempo que a biodiversidade pode suportar. Dessa forma, seguir mantendo o uso de agrotóxicos significa gerar problemas irreversíveis na agricultura que afetarão não só o campo, mas toda indústria e a população em seu conjunto.

Resposta para a questão B:

A afirmação III se refere ao oligopólio existente na produção de agrotóxicos. Oligopólio é uma forma evoluída de monopólio, em que um grupo de empresas domina a oferta de um determinado tipo de produto ou serviço. No caso especifico, estamos falando do oligopólio existente na produção e comercialização de agrotóxicos.

Atualmente, apenas 6 empresas transnacionais controlam 67,8% de todo mercado mundial de agrotóxicos, são elas Basf, Bayer, Monsanto, Syngenta, Dow e DuPont. Esse mercado movimentou em 2011 mais de 8 bilhões de dólares.

Resposta para a questão C:

Um dos principais impactos socioambientais decorrentes do uso de agrotóxicos está relacionado aos problemas gerados na saúde da população, pois tanto produtores quanto consumidores estão sujeitos a doenças resultantes das contaminações crônicas ou agudas geradas pelos agrotóxicos.

Esse problema, além de afetar a saúde das pessoas, também atinge a economia: segundo pesquisa feita pelo economista do IBGE Wagner Soares, cada dólar gasto com a compra de agrotóxicos pode gerar o gasto para os cofres públicos de US$ 1,28 em tratamentos de saúde das pessoas contaminadas. Segundo o economista, esse valor é subestimado, pois sua pesquisa contabilizou apenas as intoxicações agudas. Vale lembrar que além da subnotificação das intoxicações agudas, as intoxicações crônicas são as que têm maior custo no tratamento.

Outro impacto que vale destacar é a contaminação da água, pois os agrotóxicos despejados nas lavouras penetram no solo e, além de contaminar a terra, atingem os lençóis freáticos – afetando assim animais, plantas e pessoas que se abastecem destas águas. Tais contaminações geram processos de metamorfoses nos animais e contaminações crônicas e agudas nas pessoas que se transformarão em doenças como câncer e outras.

 

Prof. Dr. Marco Antonio Mitidiero Junior – Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

Comentário geral sobre questão dissertativa da FUVEST:

É interessante o fato de o Brasil alcançar o topo do ranking na utilização e consumo de agrotóxicos e a sociedade civil (o povo, o consumidor) não se manifestar a respeito deste triste “título” que o país leva. Em 2009, alcançamos o topo do ranking de envenenamento da produção de alimentos, utilizando aproximadamente 5,8 litros de agrotóxicos por habitantes, e essa questão não entrou efetivamente na agenda de debate em nenhuma das dimensões da vida social nacional. 

Incisivamente os movimentos sociais tentam colocar esse tema em pauta, mas o governo brasileiro, os políticos, os agentes econômicos e a mídia vedam os olhos frente o infeliz título. Diante desse contexto, a sociedade civil parece ora desconhecer, ora desmerecer um tema que vem trazendo inúmeros e gravíssimos impactos à saúde humana e ao ambiente natural.

Não é difícil encontrar as causas dessa paralisia da sociedade civil diante do envenenamento da vida. A articulação entre administradores públicos, representantes do povo no parlamento (os políticos) e agente econômicos (as multinacionais) dominam as ações públicas e privadas que garantem a livre circulação e a livre aplicação de agrotóxicos na agricultura. O fato de apenas 6 grandes empresas dominarem mais de 90% dos lucros obtidos com a venda de veneno para agricultura é o resultado mais claro dessa articulação. 

O monopólio da venda de veneno é o reflexo amargo de uma agricultura subordinada diretamente ao capital transnacional, sendo que para esse capital não pode haver barreiras ao seu desenvolvimento. Se agredir a saúde humana e a natureza for condição prévia para o desenvolvimento desse capital, que se agrida homens, mulheres e crianças e que destrua ambientes naturais!

São muitos e variados os impactos socioambientais decorrentes do uso de agrotóxico. Três deles, dentre muitos, vale ressaltar, deveriam alertar a sociedade civil dos impactos nefastos da utilização e consumo de venenos. O primeiro deles é a interferência direta no ciclo natural da reprodução dos cultivos e das espécies que se relacionam ao ambiente de plantação, em outras palavras, o uso de veneno mata todo o tipo de vida (insetos, gramíneas etc), exceto a plantação de determinada cultura, num dado ambiente onde é aplicado o veneno (estrategicamente chamado pelas multinacionais de “defensivo agrícola”).

Num fim último, o veneno tem a função de garantir a produção rápida, como se faz na indústria, da mercadoria cultivada. Tenta-se transformar a natureza, a terra cultivada, numa planta fabril, desrespeitando o tempo natural de crescimento das plantas e a vida que se relaciona a ela.

Um segundo impacto emerge diante de um crescimento exponencial da incidência de câncer na população brasileira. Existem inúmeras pesquisas realizadas por importantes institutos de pesquisas e renomados cientistas correlacionando o aparecimento de células cancerígenas ao consumo de agrotóxicos.

Por fim, um terceiro impacto que tem enorme significado ao debate sobre a garantia da vida humana são os efeitos do Glifossato, veneno de maior utilização nas lavouras brasileiras, ao homem do campo, ao produtor de alimento. Pesquisas mostram que o contato direto com o Glifosato, principalmente nos momentos de aplicação na plantação, atuam de forma destrutiva no órgão reprodutor masculino, podendo deixar o lavrador estéril.

Ou seja, o Glifossato é um tipo de agrotóxico que elimina a vida pela raiz.Dessa forma, urge que a sociedade civil levante para esse debate e que produza ações que visem transformar a produção agrícola no Brasil, direcionando a produção de alimento como garantia da reprodução da vida e não como se configura atualmente: aproximando-se da morte.



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