Vítimas de intoxicação por agrotóxico denunciam falta de assistência

Marilia Coêlho


Anisia dos Santos, mãe de criança intoxicada, pediu ajuda de especialistas

Adultos e crianças que foram contaminados com agrotóxico em maio deste ano, na escola rural São José do Pontal, em Rio Verde (GO), estão sem assistência médica. A denúncia foi feita por Anísia Andrade dos Santos, mãe de um dos alunos intoxicados e por Hugo dos Santos, diretor da unidade escolar, nesta quinta-feira (19), em audiência pública no Senado, realizada pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) que também debateu o uso de agrotóxicos na alimentação e a vulnerabilidade das populações rurais.

O diretor da escola também informou que está sofrendo ameaças e foi pressionado por um juiz para que não entrasse com processo contra os responsáveis pelo ocorrido.

Contaminação

A contaminação aconteceu no dia 3 de maio deste ano, quando um piloto de avião agrícola pulverizou agrotóxico perto da escola rural do município de Rio Verde, intoxicando 29 crianças e oito adultos que estavam no momento do recreio.O piloto, um funcionário e o dono da empresa responsável pela pulverização chegaram a ser presos, mas foram soltos no dia seguinte por uma decisão da Justiça, após pagarem fiança.

Hugo dos Santos afirmou que a Secretaria de Saúde do município não tem dado assistência médica aos intoxicados. Ele contou que, depois de cinco dias do ocorrido, as aulas retornaram e, desde então, todos os dias vários alunos têm passado mal. Entretanto, em uma ocasião, um médico chegou a dizer que as crianças não têm mais nada.

– Eu recebi agora de manhã uma ligação de uma mãe me dizendo o seguinte: olha a minha filha tem dois dias que não dorme e dois dias que não consegue comer. Os próprios alunos chegam e me falam: nunca mais a minha cabeça parou de doer, nunca mais eu parei de sentir a dor na barriga – relatou.

Anisia Andrade dos Santos pediu ajuda e assistência adquada porque as crianças estão sendo tratadas por médicos clínicos gerais, pediatras e até estagiários de Medicina. Além disso, segundo ela, os médicos não estão passando as informações, e os laudos; e cortaram exames.

– Tem uma criança que foi internada por doze vezes nesse intervalo e isso já vai fazer cinco meses. A gente precisa de pessoas capacitadas para tratar dessas crianças. Será que Deus vai permitir morrer alguém para poder alguém agir, para aparecer um médico para ajudar a gente? – disse.

Diante da declaração de Hugo Dos Santos, o procurador da República no município de Rio Verde, Wilson Assis, disse que quer ouví-lo para, se for o caso, responsabilizar as autoridades do judiciário que o tenham pressionado. Além disso, na opinião do procurador, a União precisa tratar diretamente do caso.

– Mais de quatro meses depois do ocorrido, o município não tem um toxologista fazendo o atendimento dessas famílias – reclamou.

O diretor de Coordenação e Articulação do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária da Anvisa, Jaime Oliveira, disse que a agência vai visitar novamente o local já que as autoridades não estão conseguindo cumprir sua função no município.

O bispo Dom Thomás Balduíno, representante da Comissão Pastoral da Terra, entregou uma nota à presidente da CDH, senadora Ana Rita (PT-ES), contendo informações sobre o caso de Rio Verde. A senadora disse que a nota será encaminhada ao Ministério da Saúde.

Providências

Ao final da audiência, Ana Rita fez outros encaminhamentos como o apoio da comissão ao trabalho de investigação do procurador Wilson Assis e o envio de um pedido de esclarecimento ao Ministério da Saúde, à Agência Nacional de Aviação Civil, ao Ministério da Agricultura e à Secretaria de Agricultura do Estado sobre a ausência de fiscalização e sobre quais providências foram e serão tomadas para sanar o problema.

A senadora vai ainda verificar se é possível a CDH fazer uma visita a Rio Verde em conjunto com o Ministério da Saúde, a Anvisa, o Ministério Público e a Assembleia Legislativa de Goiás.

O deputado estadual Mauro Rubem (PT-GO), presidente da Comissão de Direitos Humanos, Cidadania e Legislação Participativa da Assembleia Legislativa de Goiás, sugeriu a criação de uma comissão parlamentar de inquérito sobre o uso de agrotóxicos.

Agência Senado

(Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)



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