
Mais uma vez, entramos no mês de março com os dados da violência estrutural contra as mulheres em alta. Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios dos últimos dez anos. 1.568 mulheres foram assassinadas somente por serem mulheres. Por isso, o 8 de março se caracteriza principalmente como uma data de luta.
No campo, essa violência estrutural se consolida em diversas faces e é ancorada por muitos mecanismos e sistemas. O agropatriarcado que sustenta o rótulo das mulheres como genitoras e do lar também é o mesmo que produz e reproduz a violência sobre os corpos e a vida das mulheres.
Sendo assim, rebelar-se neste contexto é reconhecer que os agrotóxicos, a principal arma agroquímica deste modelo, não são apenas insumos agrícolas, mas instrumentos de um modelo de desenvolvimento que produz morte, adoecimento e desigualdade.
Quando analisamos seus impactos sob a perspectiva de gênero, torna-se evidente que os agrotóxicos configuram uma forma estrutural de violência contra as mulheres. Diariamente, eles envenenam territórios, contaminam águas, alimentos e o ar. Seus efeitos recaem sobre toda a população, mas atingem as mulheres de maneira particular e desproporcional. A perversidade dessa violência reside no fato de que ela alcança mulheres que sequer trabalham diretamente na aplicação dos venenos, e vai além, afetando filhas e filhos que ainda nem haviam nascido no momento da exposição.
Estudos comprovam que a exposição de mulheres grávidas a agrotóxicos aumenta as chances de danos ao DNA, associados ao desenvolvimento de câncer e leucemia aguda em crianças menores de 2 anos. Mulheres agricultoras têm 52% mais risco de desenvolver câncer de mama e 200% mais chance de apresentar metástases do que aquelas que vivem em áreas urbanas. Além disso, os casos de câncer infantil apresentam maior morbidade e mortalidade em centros de irrigação agrícola.
Outro aspecto a ser apontado são os danos transgeracionais, como as malformações congênitas, câncer infanto-juvenil, câncer no aparelho reprodutor, na tireoide e no cérebro de adultos, entre outros males, que demonstram que essa violência não termina na mulher exposta — ela se projeta para o futuro, ameaçando a continuidade de um território saudável.
Fica evidente, assim, que os impactos na saúde das mulheres devem e podem ser observados em diferentes dimensões. Sobretudo, porque a violência dos agrotóxicos se entrelaça com as desigualdades estruturais de gênero. Muitas mulheres são expostas mesmo sem aplicar os produtos diretamente, seja por meio da limpeza de roupas contaminadas, do armazenamento dos agrotóxicos próximos ou dentro de suas residências, vivendo em comunidades pulverizadas por agrotóxicos ou consumindo água e alimentos contaminados.
Neste cenário, as mulheres ainda enfrentam a sobrecarga do cuidado com familiares adoecidos — crianças com câncer, companheiros intoxicados, idosos com doenças crônicas. Ou seja, os impactos dos agrotóxicos se ampliam para uma jornada invisível que aprofunda a desigualdade social e econômica dessas pessoas.
É fundamental que se denuncie o agronegócio como uma âncora do patriarcado nos tempos atuais. Os números revelam que essa violência é sustentada por um poderoso complexo econômico que, somente em 2024, 908 mil toneladas de ingredientes ativos foram comercializados, um aumento de 20% em relação a 2023, segundo o Ibama.
Como consequência, as empresas do setor faturaram US$ 19 bilhões, uma vez que, de acordo com o Ministério da Fazenda, entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2025, as empresas do setor, como a Syngenta, Basf, Corteva, Bayer e UPL, foram beneficiadas em R$ 25,8 bilhões de renúncia fiscal.
Enquanto isso, 16.978 notificações de intoxicação por agrotóxicos foram registradas em 2025 pelo Ministério da Saúde, número que representa apenas uma fração da realidade devido à grave subnotificação. Esse contraste explicita uma engrenagem perversa: lucro privado sustentado por renúncia fiscal, enquanto o custo real é pago com a saúde e a vida, especialmente das mulheres.
Se nesse contexto os agrotóxicos são expressão de um modelo violento, devemos ressaltar que a resistência também é coletiva. A luta das mulheres camponesas, indígenas, quilombolas, trabalhadoras rurais e urbanas tem sido fundamental na denúncia dos impactos e na construção de alternativas reais e concretas. Não se trata apenas de proteger-se, mas de transformar o modelo agrícola e econômico que naturaliza o envenenamento.
A agroecologia, a soberania alimentar, a defesa dos territórios e das políticas públicas de saúde e meio ambiente emergem como caminhos concretos. Logo, rebelar-se, como convoca Diva Lopes, é romper com o silêncio e nomear os agrotóxicos como violência e ameaça à vida das mulheres. É denunciar o pacto entre quem arquiteta a morte e ganha o lucro, e fortalecer quem organiza a vida em luta permanente.
