Da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida

O desmatamento não destrói apenas árvores — destrói modos de vida, culturas e identidades. Segundo informações da recente reportagem da Agência Brasil “Indígenas relatam que desmatamento impacta produção de cocares”, essa é uma realidade que há décadas vem sendo denunciada pelos povos indígenas. A devastação, impulsionada por queimadas, invasões e uso de agrotóxicos, já compromete até mesmo a produção de cocares, símbolo ancestral de identidade, proteção e espiritualidade.
A denúncia é direta e escancara uma realidade de décadas, como afirma o artesão Tapurumã Pataxó, de 32 anos, “os fazendeiros estão acabando não só com o nosso território, mas com o Brasil todo”. A fala não é exagero retórico — é a síntese de um processo sistemático de destruição territorial promovido por grileiros, madeireiros e pelo avanço do agronegócio sobre terras indígenas. Tapurumã participou do Acampamento Terra Livre, que se encerrou neste sábado (11), em Brasília (DF), para alertar que o cenário dos territórios indígenas tem sido de menos aves no céu. Com menos pássaros, a produção artesanal de cocares é impactada.

Esse cenário não é isolado nem recente. Como já apontado em matéria do Brasil de Fato em meados de 2020 e republicada aqui, a matéria “Nem caboclos, nem indígenas: desmatamento e grilagem queimam a Amazônia”, aponta que são justamente os desmatadores — e não as populações tradicionais — os principais responsáveis pelas queimadas que devastam a Amazônia.
Estudos científicos, como o Who is burning and deforesting the Brazilian Amazon – “Quem está provocando incêndios e desmatando a Amazônia brasileira” – publicado por pesquisadores brasileiros na Science, uma das revistas acadêmicas mais respeitadas do mundo, confirmam que o fogo está diretamente ligado à expansão da fronteira agropecuária e à grilagem de terras.
Logo, os povos indígenas que historicamente são acusados — de forma racista e infundada — de “atrasar o desenvolvimento”, na verdade, enfrentam o capital financeiro que promove a destruição em larga escala, transformando a floresta em mercadoria e território em ativo financeiro.
No que se refere à conexão com os agrotóxicos, podemos dizer que essa é igualmente evidente. A própria reportagem da Agência Brasil aponta que o uso desses venenos faz parte da dinâmica de invasão dos territórios, de contaminação de solos, águas e ecossistemas dos quais dependem as práticas culturais indígenas. Portanto, a perda aqui não é apenas ambiental, mas uma estratégia dentro de uma contexto de guerra química que atinge diretamente os corpos e os saberes tradicionais existentes nestes territórios.
Estamos, portanto, diante de um padrão do capital para o campo brasileiro que promove o avanço do desmatamento impulsionado por interesses privados, faz uso intensivo de agrotóxicos como ferramenta de ocupação e exploração, principalmente com o uso de tecnologias como os drones na pulverização aérea e intimidação dos territórios, tudo isso ocorre diante da omissão do poder público, bem como, da criminalização e invisibilização dos povos indígenas.
Nesse sentido, vale ressaltar novamente, os impactos vão muito além da dimensão material. Trata-se um de um crime continuado de apagamento histórico cultural desses povos, já que suas práticas, cosmologias e expressões dependem da biodiversidade e do equilíbrio dos territórios. Assim, destruir a floresta é, também, destruir a memória, a espiritualidade e o futuro.
Enquanto isso, o agronegócio avança com apoio político, financeiro e institucional, a pergunta que permanece é: até quando a destruição será tratada como desenvolvimento?
