Café Dona Ana Maria debate o impacto dos agrotóxicos na 23ª Jornada de Agroecologia do Paraná

Espaço organizado pela Campanha Permanente promove oficinas e rodas de conversa sobre alimentação saudável em Curitiba

Foto: Comunicação MST/PR

Por Leonardo Fernandes
Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida

A 23ª Jornada de Agroecologia, que ocorre entre 18 e 21 de junho no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba (PR), reserva um local central para a resistência contra o uso de agrotóxicos no campo. O Café Dona Ana Maria, organizado pela Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, chega a sua 4ª edição como um ponto de encontro essencial para debater o modelo sustentável de produção e de vida.

O espaço homenageia Dona Maria, lutadora quilombola do Paiol de Telha que se dedicou por anos à defesa da terra e do território. Durante o evento, o café promove a comunicação direta com a sociedade por meio de oficinas, rodas de conversa e mostras científicas. 

Um dos destaques na programação foi a atividade sobre como identificar e combater a desinformação, que buscou criar estratégias contra notícias falsas espalhadas pelo agronegócio a respeito dos agrotóxicos. Aline Reis, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, foi a responsável por conduzir uma oficina sobre o tema. 

“A gente precisa entender os processos que estão atrás da desinformação, quais os interesses e precisamos nos organizar também para identificar, sobretudo no que tange ao agrotóxico. A gente precisa entender quais interesses estão atrás da defesa dos agrotóxicos, que são chamados defensivos, mas a gente sabe muito bem que são veneno”, disse a jornalista.

Jocinei Gonçalves de Lima, da coordenação de bioinsumos do assentamento Contestado, no município de Lapa (PR), explica que o acesso ao patrimônio microbiano brasileiro é fundamental para a soberania alimentar e para enfrentar o domínio das multinacionais.

“Bioinsumos são ferramentas estratégicas por diversos fatores. Uma pelo produto bioinsumos que substitui esses produtos químicos com bastante eficiência. São sustentáveis e de baixo custo, mas trazem também outros elementos como pano de fundo, que é, por exemplo, o acesso ao patrimônio microbiano brasileiro. Quando a gente começa a prospectar, trabalhar com bios, acessamos recursos naturais. Esses recursos naturais são representados pelos microorganismos, talvez a última fronteira inclusive dos recursos naturais. Quem está acessando isso no Brasil, todo esse patrimônio microbiano brasileiro são multinacionais. Portanto, cabe a nós, da agricultura camponesa, também entrar nessa disputa, porque esse recurso é patrimônio efetivamente do povo brasileiro”, destacou o assentado.

Foto: Comunicação MST/PR

Com a participação de 137 empreendimentos e diversos movimentos sociais, a jornada reafirma que a produção de comida de verdade passa necessariamente pelo enfrentamento aos agrotóxicos. Para Jakeline Pivato, coordenadora da Campanha Contra os Agrotóxicos, o Café Dona Ana Maria segue como um ambiente de formação e intercâmbio de saberes para camponeses e para o público urbano até o encerramento das atividades.

“Essa é uma das missões da campanha: se fazer presente nos espaços de luta, sobretudo aqueles que envolvem os pequenos agricultores, para estabelecer esse diálogo tão fundamental para o desenvolvimento sustentável do nosso país, que segue sendo o maior consumidor de agrotóxicos de todo o mundo. E para nós, é uma via de mão dupla, porque à medida que nós estabelecemos esse diálogo, conseguimos difundir essas informações, qualificar as denúncias, e ter o registro da realidade dos territórios, que são os maiores impactados pelo modelo do agronegócio, altamente dependente de venenos”, disse Pivato. 

Já o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stedile, destaca a importância das jornadas de agroecologia para ampliar o debate com toda a sociedade sobre o caráter civilizatório da necessária transição agroecológica. 

“A jornada de agroecologia é fantástica, ela é uma universidade popular. E a partir da jornada de agroecologia do Paraná, que foi a pioneira, nós temos hoje já vários espaços como esse. Às vezes, nos estados, nós estamos dando o nome de feiras de reforma agrária, que é mais simpática para dialogar com a população. E é fundamental poder continuar falar com a população da cidade a partir das oficinas, desses diálogos, dessa interação, acumulando para esse projeto de futuro”, destacou Stedile.

Além do MST, a 23ª Jornada de Agroecologia é realizada pela Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária com patrocínio do governo federal e de instituições como a Itaipu Binacional e a Fundação Banco do Brasil.

Foto: Comunicação MST/PR

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