Via Campesina denuncia impactos da pulverização aérea de agrotóxicos por drones em Minas Gerais

Por Iris Pacheco
Da Campanha contra os Agrotóxicos e pela Vida

Nesta quarta-feira (22), a Via Campesina realizou, em Governador Valadares, o Seminário de Formação em Defesa da Agricultura Familiar e da Alimentação Saudável.

A atividade, realizada na sede da Cáritas, reuniu trabalhadores e trabalhadoras rurais, quilombolas, indígenas, representantes de sindicatos e de órgãos públicos municipais. A programação contou com debates sobre ciência a serviço do campo, destacando a importância das análises de solo, água e vegetais como ferramentas para garantir uma produção de alimentos mais segura e sustentável. A mesa teve a contribuição das pesquisadoras Kamila Baião, Karla Rainha e Joh Almeida.

Outro tema central do seminário foi o impacto do uso intensivo de agrotóxicos sobre a população do campo e os desafios impostos aos projetos de agroecologia. O contexto foi apresentado pelo professor do curso de Direito e pesquisador da Univale, Diego Jeangregório Martins e entre as principais preocupações levantadas está a pulverização aérea, que ganha uma nova dimensão com o uso de drones para aplicação de agrotóxicos, tecnologia que ainda carece de regulamentação e fiscalização adequadas. 

De acordo com movimentos sociais e organizações que atuam nos Vales do Mucuri e do Rio Doce, a expansão do uso de drones para pulverização de agrotóxicos tem colocado comunidades rurais, produções agrícolas e o meio ambiente em situação de risco. As entidades alertam que a tecnologia vem sendo adotada “sem uma regulamentação efetiva e sem que a capacidade de fiscalização dessa nova tecnologia tenha sido devidamente estruturada”, o que pode ampliar, “de forma silenciosa, o uso de agrotóxicos em todo o território nacional”.

Entre as situações denunciadas estão casos registrados em Poté, Pavão, Governador Valadares e Jampruca. Segundo a Via Campesina, famílias relataram aplicações de herbicidas por drones próximos a produções orgânicas, comunidades rurais e áreas de Mata Atlântica, afetando a produção de alimentos e a coleta de sementes utilizada por cerca de 150 famílias assentadas da reforma agrária. 

Durante a atividade, os participantes reforçaram a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à agricultura familiar, à produção agroecológica e à proteção das comunidades rurais, defendendo maior controle sobre o uso de tecnologias de pulverização e medidas que assegurem a saúde da população e a preservação ambiental.

No final do Seminário, a Via Campesina lançou uma Carta Denúncia do uso de drones na pulverização aérea de agrotóxicos em Minas Gerais e cobrou providências do Poder Público. “Denunciamos, repudiamos e cobramos que os órgãos públicos criem mecanismos legislativos contra os agrotóxicos, realizem a fiscalização e promovam a transparência sobre essas operações para que possamos reduzir o uso de agrotóxicos em respeito aos direitos das comunidades, à saúde pública e ao meio ambiente. O objetivo é prevenir conflitos e proteger as populações dos Vales do Mucuri e do Rio Doce”, afirma a carta. 

O documento reúne dados que apontam o crescimento da pulverização aérea no país. Segundo a carta, o Brasil registrava, em junho de 2025, 8.586 drones cadastrados na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para pulverização de agrotóxicos, embora estimativas do setor indiquem que o número de equipamentos em operação possa chegar a 25 mil unidades. A carta também destaca que o Brasil registrou 9.729 casos de intoxicação por agrotóxicos em 2025, um aumento de 84% em relação a 2015, com média de 27 pessoas intoxicadas por dia. 

Na carta, a organização afirma que “o uso de drones para pulverização aérea já se converteu em uma operação de alto risco no campo brasileiro” e reforça que a discussão “não é um debate contra a tecnologia”, mas pela utilização com “responsabilidade, controle público e proteção das pessoas e do meio ambiente”. 

O seminário integra a programação da Semana do 25 de Julho, que celebra o Dia do Trabalhador e da Trabalhadora Rural e o Dia Internacional da Agricultura Familiar no Brasil.

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