Estudo coletou amostras em São Paulo, Capuava e Piracicaba e fez testes em células do pulmão; governo diz que faz monitoramento contínuo

Por Juliana Domingos de Lima
Do Estadão
Respirar o ar de Piracicaba, no interior paulista, pode ser pior para a saúde do que estar exposto à poluição da capital. É o que indica uma pesquisa do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), em que pesticidas associados ao risco de câncer foram detectados em maior concentração na zona agrícola piracicabana.
Conduzida pela química Aleinnys Yera, pesquisadora da USP, o trabalho envolveu coleta de amostras de material particulado (conjunto de partículas que ficam suspensas no ar, como pólen e fumaça de queimadas) em Piracicaba, Capuava e na capital paulista. Depois, foram feitos testes com os compostos encontrados em células epiteliais de pulmão humano.
A presença de pesticidas no ar foi detectada tanto nas áreas urbana e industrial quanto rural, o que indica impacto desses produtos para além da região onde são usados . É uma evidência, portanto, de que esses materiais são transportados pelo ar e chegam também a áreas mais afastadas.
O governo de São Paulo informa, em nota, que faz monitoramento contínuo do uso de produtos, “fiscalizando as atividades agrícolas para garantir o cumprimento da legislação e práticas sustentáveis”. As infrações passaram a ser penalizadas com multas no ano passado – até dezembro, foram 57 autuações pelo Estado, e 40 processos estavam em análise.
A amostra de Piracicaba registrou nível mais alto de atrazina, composto usado para controle de pragas nas culturas de cana-de-açúcar. Apesar de estar associado a alguns tipos de câncer e permanecer por longo tempo no ambiente, seu uso é permitido no Brasil.
Além disso, a toxicidade da amostra foi potencializada pela mistura de diferentes pesticidas. Essa “sinergia” aumenta o efeito tóxico que cada composto tem isoladamente, segundo Aleinnys.
Procurada pela reportagem, a Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana) – a planta é o principal cultivo da região – não se manifestou sobre o uso da atrazina.
Já na área urbana (em São Paulo) e industrial (de Capuava), os pesticidas mais abundantes foram malationa e permetrina, que podem ser usados em campanhas de pulverização de larga escala para combater mosquitos transmissores de doenças, como a dengue, conforme a pesquisa.
O estudo aponta ainda, nos três locais e para todas as populações afetadas, alta exposição diária por inalação do heptacloro, outro composto associado ao risco de câncer. Seu uso agropecuário foi banido há décadas do Brasil, mas ele é um poluente persistente e ainda resiste no ambiente.
Embora com intensidades diferentes, os pesticidas presentes nos locais onde foi feita a amostragem causaram estresse e morte de células pulmonares, comprovando o impacto na saúde e o risco de desenvolvimento de doenças como o câncer.
A pesquisa reconhece a importância da atividade agrícola no País, mas levanta preocupação sobre o uso intensivo e indiscriminado dos agrotóxicos.
“Têm impacto na saúde de todos nós. Não é só no ar – lixivia e vai para a água, para os rios, para o mar. É uma contaminação ecossistêmica”, diz a professora do Instituto de Química da USP Pérola Vasconcellos.
Ao Estadão, a Associação Nacional das Empresas de Produtos Fitossanitários (Aenda) disse atuar no setor regulatório e na educação voltada ao campo para evitar casos de intoxicação e contaminação ambiental pelos produtos químicos.
Estudo de pesticidas no ar ainda é raro
O amostrador – equipamento que suga o ar e separa o material particulado conforme o tamanho da partícula – foi instalado em três locais:
- no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, na Cidade Universitária, na zona oeste de São Paulo;
- em uma estação da Companhia Ambiental do Estado (Cetesb) e em uma escola em Capuava, ambas localizadas a cerca de 500 metros do polo petroquímico;
- no câmpus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP em Piracicaba, onde haveria tanto influência da cidade quanto de plantações de cana-de-açúcar.
Por ser caro e difícil, o estudo dos pesticidas na atmosfera ainda é menos comum do que na água, no solo ou nos alimentos. Mas o interesse dos cientistas pela presença desses químicos no ar e os riscos que oferecem à saúde tem aumentado e feito crescer o número de novas pesquisas.
Com o interesse de investigar essa nova frente, a professora da USP Pérola Vasconcellos, especializada no estudo da qualidade do ar, propôs o tema de pesquisa a Aleinnys.
A hipótese inicial era de que a amostra paulistana teria efeito pior para a saúde. “A gente sempre pensa que São Paulo é mais poluída. E, com relação a certos compostos é mesmo”, diz Pérola. “Mas a pesquisa comprova que estamos respirando pesticidas, e que isso faz mal à saúde mesmo em concentrações muito baixas”.
As pesquisadoras alertam que os resultados não podem ser extrapolados para toda a extensão das três cidades, mas se referem aos locais onde foram coletadas as amostras. Considerando o peso da atividade agrícola e o uso intensivo de agrotóxicos no País, porém, afirmam ser “provável” a presença mais generalizada de pesticidas no ar.
“A cana-de-açúcar é o cultivo que mais recebe pulverização aérea no Estado de São Paulo, maior produtor de cana no Brasil”, afirma Larissa Bombardi, professora da USP que estudou a geografia do uso de agrotóxicos no Brasil. Hoje, ela é diretora de pesquisa do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, na França.
A Associação Nacional das Empresas de Produtos Fitossanitários (Aenda) diz atuar no setor regulatório e na educação voltada ao campo para evitar casos de intoxicação e contaminação ambiental. “É um trabalho que tem de ser cada vez mais intensificado”, afirma o diretor executivo da entidade, Luís Carlos Ribeiro, especialista em registro de agrotóxicos. Ele defende que o setor no Brasil é “altamente regulado”, com avaliação rigorosa dos produtos da qual participam órgãos da Agricultura, da Saúde e do Meio Ambiente.
Ribeiro admite, porém, que a dispersão no ar ainda não é considerada nas regulações e ações da entidade por ser objeto de poucos estudos.
Em relação à aplicação aérea, diz que a associação acompanha casos em que há problemas – como a aeronave ter feito o sobrevoo em altura não recomendada ou ser atingida por uma corrente de vento, o que favorece a deriva –, adotando medidas de mitigação.
“As áreas mais críticas de São Paulo são as de cana, por causa da aplicação aérea”, afirma. “(Quando há problema) a gente procura saber o que ocorreu para evitar a deriva ou atingir áreas vizinhas nas próximas aplicações”. Ribeiro cita também o crescimento da aplicação por drone, sobretudo em pequenas e médias áreas, que afirma ser mais segura, sem contato com o produtor.
Quais os efeitos dos pesticidas no pulmão?
O estudo mediu a concentração de um tamanho específico de partículas: as menores ou iguais a 2,5 micrômetros, conhecidas como PM 2,5 ou “partículas finas”, que são inaláveis e causam os maiores danos à saúde.
Com essas partículas aderidas a filtros que eram diariamente substituídos nos amostradores durante quinze dias, a pesquisa passou à etapa de laboratório, em que o material particulado foi extraído com o uso de solventes químicos, permitindo calcular a concentração de cada composto nas amostras.
A partir daí, a pesquisadora usou dois métodos para avaliar os efeitos para a saúde dos pesticidas encontrados no ar das três localidades. O primeiro foi a aplicação de modelos matemáticos para verificar se os valores estavam dentro dos parâmetros internacionais, estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde.
Além da alta exposição diária por inalação do heptacloro em todos os locais e populações, foram identificados valores altos para a exposição ao malationa na população de bebês da região agrícola de Piracicaba. Com esses compostos acima dos valores recomendados, o quociente de perigo acusou risco de câncer. Não foi encontrado risco para doenças não carcinogênicas.
Aleinnys também simulou a exposição de células do pulmão humano ao material particulado para observar as reações ao longo do tempo. Essas análises foram feitas com os compostos isolados e também misturados.
“Em todos os testes, vi que esse ‘mix’ de pesticidas foi muito mais forte. Teve mais influência (sobre as células) quando os pesticidas estão juntos, como acontece no material particulado”, diz a pesquisadora. “A sinergia de compostos pode causar um risco maior para as pessoas expostas”.
A exposição das células pulmonares às amostras provocou estresse oxidativo e morte de células nos três casos. Mas as amostras de Piracicaba e Capuava se mostraram as mais nocivas.
A da região agrícola piracicabana foi a que matou mais células. Já a amostra da área industrial de Capuava causou menos morte celular, mas maior estresse oxidativo, o que pode dar origem a doenças cardiovasculares, degenerativas e câncer.
Segundo o professor da Faculdade de Medicina da USP Paulo Saldiva, os danos mais comuns à saúde causados por pesticidas são alterações hormonais e alguns tipos de câncer (como o do sistema linfático). Esses riscos aumentam conforme a janela de exposição e a concentração dos compostos.
Para Saldiva, especialista em poluição atmosférica, o estudo vai ao encontro do que é apontado pela ciência – de que o aumento da concentração de compostos orgânicos e inorgânicos potencializa a toxicidade do ar –, e “mostra que a poluição não é prerrogativa de áreas industriais e urbanas”, diz.
A Cetesb afirma seguir “boas práticas internacionais”, participando desde 2010 do Plano Global de Monitoramento de Poluentes Orgânicos Persistentes, tendo a cidade de São Paulo como um dos pontos de amostragem para “diversos agrotóxicos”. Segundo a companhia, “dados indicam tendência de redução desses poluentes” e a Cetesb também monitora a presença de agrotóxicos em águas superficiais e subterrâneas.
O governo estadual afirma ainda ter capacitado mais de 80 mil produtores rurais em todo o Brasil, por meio do programa Aplique Bem, do Instituto Agronômico de Campinas, órgão de pesquisa estadual, que promove “o manejo racional de defensivos agrícolas” e “proporciona mais segurança aos aplicadores e minimiza impactos ao meio ambiente”.
