
Coordenadora da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida fala sobre dados recentes que destacam problemas de saúde no campo
Por Monyse Ravena E Tabitha Ramalho
Do Brasil de Fato
O Brasil é hoje um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. No campo, esses venenos têm impactos profundos e específicos na saúde das mulheres. Dados da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida mostram que mulheres agricultoras têm 52% mais risco de desenvolver câncer de mama e a chance de metástase pode ser até três vezes maior em comparação com mulheres de áreas urbanas.
Muitas vezes, essa contaminação acontece sem que as mulheres sequer apliquem o produto. Ela surge ao lavar roupas contaminadas, ao viver em áreas de pulverização ou ao conviver com galões de veneno dentro de casa. Em 2024, o mercado de agrotóxicos movimentou US$ 19 bilhões no Brasil, e as grandes empresas receberam cerca de R$ 26 bilhões em renúncias fiscais.
No BdF Entrevista, a secretária-executiva da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, Jakeline Pivato, analisa os impactos dessa violência silenciosa, a negligência da ciência, a subnotificação dos casos e as alternativas para um modelo agrícola mais justo e saudável.
Pivato começa explicando o conceito de “violência silenciosa” que a campanha utiliza. “É uma dimensão de violência estrutural, inerente ao modelo do agronegócio. O impacto dos agrotóxicos na saúde feminina é frequentemente negligenciado, inclusive pelo formato da ciência patriarcal.”
Ela detalha como essa negligência se manifesta. “A maioria dos limites de ingestão diária aceitável de agrotóxicos foi estabelecida a partir de modelos de toxicologia que utilizaram ratos machos ou um homem adulto jovem de 70 quilos. Ignora-se que o corpo feminino tem composição diferente, com mais tecido adiposo, e que esses venenos, lipossolúveis, se acumulam de forma diferente nas mulheres.”
A exposição crônica gera sintomas frequentemente ignorados. “As mulheres relatam cansaço extremo, enxaqueca, alterações de humor, dores pélvicas. Na medicina tradicional, esses sintomas são atribuídos a questões psicológicas, estresse doméstico, à ‘natureza emocional’ do corpo feminino. Isso dificulta o diagnóstico de doenças graves e mascara a origem ambiental do problema.”
Os dados sobre câncer são alarmantes. “O câncer de mama é a neoplasia que mais mata mulheres no país. Agrotóxicos como glifosato e malation são potentes disruptores endócrinos: imitam o estrogênio e estimulam a proliferação de células cancerígenas. A ciência hegemônica foca em fatores genéticos e ignora esse bombardeio químico cotidiano.”
Sobre a saúde reprodutiva, Pivato relata casos frequentes. “São comuns relatos de infertilidade, abortos espontâneos e más formações congênitas entre mulheres camponesas, indígenas e de comunidades tradicionais. Isso afeta diretamente o sistema reprodutivo, com desregulação hormonal e impactos na tireoide.”
Os danos são transgeracionais. “Estudos mostram presença de resíduos de agrotóxicos no leite materno. Uma mãe que sabe disso sofre uma violência simbólica e concreta. Crianças nascem já contaminadas, e a exposição segue na água, no alimento, no ambiente.”
A contaminação também aprofunda desigualdades de gênero. “As mulheres assumem naturalmente o cuidado de familiares doentes. Quando há uma criança com má formação ou um idoso com câncer, é a mãe, a irmã, a avó que cuida. Além de estarem elas mesmas contaminadas, acumulam o trabalho extra de acompanhamento médico e cuidados domésticos.”
Pivato destaca que a resistência também passa pela organização coletiva. “Os grupos de mulheres surgem dessa necessidade de encontrar saídas para a lógica exaustiva de trabalho e violência. Quando um ataque com agrotóxicos destrói uma horta agroecológica, perde-se produção, economia e esperança.”
O Pronara e a luta por um novo modelo
O Brasil registrou 17 mil notificações de intoxicação por agrotóxicos em 2025, mas Pivato alerta que os números reais são muito maiores. “Há uma subnotificação gigantesca. Muitos casos são tratados como virose, sem que se investigue a origem. Profissionais de saúde não são treinados para perguntar sobre exposição a agrotóxicos, e os sistemas de denúncia são pulverizados e inacessíveis.”
O setor de agrotóxicos movimentou US$ 19 bilhões em 2024 e recebeu R$ 26 bilhões em renúncias fiscais. Enquanto isso, o orçamento do Ministério da Saúde, que trata das consequências, foi de R$ 204 bilhões. “O lucro é deles, a conta é nossa”, aponta.
Sobre o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), aprovado recentemente, Pivato é cautelosa. “Não é um programa revolucionário, mas um caminho para reduzir a dependência. Foram priorizadas 31 iniciativas, a maioria que não depende do Congresso. Mas o ‘pacote do veneno’ fragilizou ainda mais a regulação: Anvisa e Ibama foram esvaziados, e as liberações seguem a todo vapor.”
A campanha defende medidas concretas. “Precisamos de um canal unificado de denúncias, protocolo obrigatório de notificação para profissionais de saúde, proibição da pulverização aérea e restrições mais rígidas. É urgente que dinheiro público não financie alimentos contaminados — o PAA e o PNAE deveriam priorizar a agroecologia.”
Pivato conclui com um chamado à sociedade. “Precisamos ganhar consciência. Quem alimenta o Brasil é a agricultura camponesa, que sofre os ataques do agronegócio. O agrotóxico vai para as commodities, não para o prato do povo. Participar de feiras agroecológicas, fiscalizar a merenda escolar, acompanhar os candidatos — tudo isso é vigilância popular.”
A campanha segue organizada em comitês locais, universidades e movimentos sociais. “As mulheres têm um papel central nessa resistência. Fortalecer os espaços de poder — conselhos tutelares, associações de bairro — é fundamental. O agrotóxico é uma violência, e a resposta é a organização coletiva.”
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
Editado por: Nathallia Fonseca
