Agricultores de povos e comunidades tradicionais denunciam a perda de território, o aumento de pragas e o envenenamento de suas roças por fazendas sojeiras.
Por Julia Dolce
Do Joio e o Trigo
Em uma visita realizada a três territórios quilombolas do leste do Maranhão, em 2025, Emília Costa se deparou com a seguinte realidade: comunidades historicamente produtoras de arroz passaram a comprar o grão.
Articuladora do Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom), Costa explica que o cenário encontrado não foi exatamente uma surpresa. “As monoculturas chegaram com muita força, invadiram mesmo. A soja entrou no território deles e grilou boa parte do que eles tinham”.
O fenômeno vem acontecendo em diferentes territórios que integram o perímetro do Matopiba, região conhecida como última fronteira agrícola do país.
Acrônimo das siglas dos estados do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia, o Matopiba foi oficialmente decretado pelo governo brasileiro há pouco mais de uma década para estimular o desenvolvimento do agronegócio na região.
Por lá, como em outras fronteiras agrícolas do Brasil, o carro chefe do setor é a soja. Atualmente, o Matopiba é responsável por 19% da produção da oleaginosa no país. A previsão para a safra atual é de recordistas 172,5 milhões de toneladas do grão.
Essa superação anual da produtividade depende de outro recorde, uma expansão vertiginosa do território nacional tomado por monoculturas da soja. Hoje, essa cultura ocupa cerca de 48 milhões de hectares do território brasileiro, sendo que mais de um terço dessa área passou a plantar o grão nos últimos dez anos.
O Matopiba tem sido uma região particularmente importante para esse crescimento. No território, a soja já ocupa quase cinco milhões de hectares – dados celebrados pelo setor.
Na narrativa do agro, os números ilustram uma produção de alimentos que ajuda a combater a fome internacionalmente. Como explica a socióloga Milena Evangelista, que pesquisa o discurso e os impactos do agronegócio na insegurança alimentar no Matopiba, não é bem assim.
“É um mote muito forte esse do Matopiba como uma área salvadora do setor alimentar do país. Essa narrativa do agronegócio como um elemento que combate fortemente os problemas alimentares e principalmente a fome. E o que a gente vê, na verdade, é o contrário disso”, afirma.
Vale lembrar que dois terços da soja brasileira são exportados e que cerca de 90% dos grãos que ficam no país se tornam ração animal, e não alimento humano.
O resultado é um cenário alarmante: O território do Matopiba tem sido usado mais para a plantação de commodities do que de alimentos. Em muitos casos, como os descritos por Costa, essa conta é de fato uma substituição.
Ao longo do último ano, o Joio tem visitado os estados que formam o Matopiba para investigar os impactos socioambientais do avanço do agronegócio na região. As reportagens integram a série A última fronteira. Um efeito bastante direto da expansão da monocultura e que é pouco abordado é a redução de hectares plantados com outros cultivos centrais para a dieta brasileira, como o arroz, o feijão e a mandioca.
Segundo o agrônomo Laelson Ribeiro, quilombola do território Baião, que fica no sudeste do Tocantins, o decreto do Matopiba incentivou uma grande concentração e mercantilização de terras públicas, antes cultivadas coletivamente na região.
“Consequentemente, diminuiu a produção, porque quem era responsável pela produção dessas culturas era a agricultura familiar”, explica.
A reportagem levantou a área ocupada por essas principais culturas do prato brasileiro no Matopiba, a partir dos dados da pesquisa Produção Agrícola Municipal (PAM), também do IBGE. Os dados revelam que desde o decreto da fronteira agrária, em 2015, a região perdeu 142 mil hectares de arroz, 23 mil de feijão e 75 mil de mandioca.

Vale lembrar que dois terços da soja brasileira são exportados e que cerca de 90% dos grãos que ficam no país se tornam ração animal, e não alimento humano.
O resultado é um cenário alarmante: O território do Matopiba tem sido usado mais para a plantação de commodities do que de alimentos. Em muitos casos, como os descritos por Costa, essa conta é de fato uma substituição.
Ao longo do último ano, o Joio tem visitado os estados que formam o Matopiba para investigar os impactos socioambientais do avanço do agronegócio na região. As reportagens integram a série A última fronteira. Um efeito bastante direto da expansão da monocultura e que é pouco abordado é a redução de hectares plantados com outros cultivos centrais para a dieta brasileira, como o arroz, o feijão e a mandioca.
Segundo o agrônomo Laelson Ribeiro, quilombola do território Baião, que fica no sudeste do Tocantins, o decreto do Matopiba incentivou uma grande concentração e mercantilização de terras públicas, antes cultivadas coletivamente na região.
“Consequentemente, diminuiu a produção, porque quem era responsável pela produção dessas culturas era a agricultura familiar”, explica.
A reportagem levantou a área ocupada por essas principais culturas do prato brasileiro no Matopiba, a partir dos dados da pesquisa Produção Agrícola Municipal (PAM), também do IBGE. Os dados revelam que desde o decreto da fronteira agrária, em 2015, a região perdeu 142 mil hectares de arroz, 23 mil de feijão e 75 mil de mandioca.
Pode parecer uma perda desproporcional frente à extensão dos milhões de hectares ocupados por soja. Vale pontuar, porém, que boa parte dessas áreas também sofreu desmatamento da sua vegetação nativa, formada principalmente pelo Cerrado.
Nos últimos anos, o Cerrado tem liderado o ranking de desmatamento no país, e o Matopiba está no pódio dessa devastação. 75% dos 652.197 hectares do bioma desmatados em 2024 estavam localizados nessa região.
O Maranhão, que tem a maior parte do seu território inserido no Matopiba, encabeça o ranking. Em 2024, foram 218.298 hectares de vegetação perdidos.
Esse desmatamento também impacta na segurança alimentar local, já que o extrativismo de alimentos endêmicos do Cerrado segue importante para a dieta de povos e comunidades tradicionais no Matopiba.
Para Evangelista, esses dados ganham menos atenção do que deveriam. Ela lembra que ambientalistas consideram o Cerrado como uma zona de sacrifício do agronegócio. O termo define regiões onde as vidas e as relações entre povos e territórios são descartados para o lucro de setores econômicos.
O próprio Maranhão, que já foi uma grande potência brasileira na produção de arroz, foi o estado que mais sofreu redução de hectares plantados de arroz desde 2015. Por lá, foram cerca de 113 mil hectares a menos em dez anos.
Duas das comunidades visitadas pela articuladora quilombola Emília Costa e que deixaram de produzir arroz, Cocalinho e Guerreiro, ficam no município maranhense de Parnarama. Desde 2015, o município perdeu 1.783 hectares de arroz.
Desequilíbrio completo
Na Bahia, comunidades têm sofrido impactos semelhantes. O estado, que tem apenas sua porção oeste dentro do perímetro do Matopiba, perdeu quase 7 mil hectares de arroz, 57 mil de feijão e 16 mil de mandioca nos últimos dez anos.
O agricultor Bernardino Alves Barbosa, fecheiro da comunidade tradicional de Fundo e Fecho de Pasto de Pedrinhas, localizada no município do oeste baiano de Correntina, vem percebendo essa diferença. Ele tem 40 anos de idade e sua família vive na região há gerações.
“Desde o tempo do meu pai, avô e bisavô, minha família mora aqui na comunidade. Antes a gente plantava milho, mandioca, feijão. Meu avô plantava arroz”, conta. De uns tempos pra cá, porém, o cultivo de alimentos em Correntina diminuiu muito. “O arroz está quase zerado”, revela.

Segundo os dados da PAM, entre 2000 e 2024, Correntina perdeu 1.930 hectares cultivados de arroz. Em paralelo, ganhou 133 mil hectares de soja.
Para Barbosa, a relação entre esses dados não está apenas na substituição direta. Ele conta que na região onde vive, o avanço do agronegócio provocou também um notório impacto climático.
“Quando começou a desmatar o clima mudou. Tá tendo diferença nas chuvas. Antes você tinha um frio, e agora, as noites tão quentes como se fosse dia”, relata.
Esse impacto trouxe outro problema que prejudica o cultivo de alimentos: o crescimento na quantidade e nas espécies de insetos e fungos que destroem as plantações.
“Minha mandioca nasceu e depois veio tipo uma bruxa, tipo a bruxa do cacau, e as folhas ficaram todas engruvinhadas. Eu nunca tinha ouvido falar dessa doença. Tem também pulgão, que não era costume ver na lavoura da mandioca. O pessoal começa a ficar descrente e acaba não plantando”, conta Barbosa.
Reclamações sobre um inseto em especial, a mosca branca, têm aparecido com frequência em entrevistas feitas pelo Joio em diferentes territórios do Matopiba. “Elas são muito pequenininhas, muitas das vezes as pessoas nem notam. E aí quando você dá fé, a lavoura está praticamente toda perdida”, explica o agricultor.
Segundo Laélson Ribeiro, o desequilíbrio ambiental provocado pelas monoculturas está por trás do fenômeno. “Só dentro dos ecossistemas desses territórios [de povos e comunidades tradicionais] ainda tem mato, ainda tem planta, ar fresco e saudável. Então os animais também procuram essas regiões de agricultura familiar”.
O agrônomo explica que muito de seu trabalho como técnico de campo da organização Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) tem se concentrado no auxílio ao combate dessas novas pragas. “Os agricultores não sabem como enfrentar, porque até o momento eles não precisavam, a natureza fazia esse equilíbrio”.
Enquanto a APA-TO busca trabalhar de forma agroecológica, evitando o uso de agrotóxicos e de sementes transgênicas, empresas e extensionistas rurais acabam incentivando o uso de veneno para combater as novas pragas. Ribeiro conta que no Tocantins, cujo território está totalmente inserido nas fronteiras do Matopiba, os agricultores são cada vez mais empurrados ao modelo de produção do agro.
“A política do estado é o agronegócio. Então a própria Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural] está incentivando a ir para esse caminho do agronegócio, distribuindo sementes transgênicas e desvalorizando a cultura de quem está no campo”, afirma.
Como resultado desse movimento, não apenas os hectares plantados com maior diversidade de alimentos estão diminuindo, mas também as variedades de sementes de cada um desses alimentos. Além disso, as sementes transgênicas são híbridas, não se reproduzem, de forma que os agricultores ficam reféns da compra anual de novas sementes. “Isso desestrutura a agricultura familiar, é uma perda de soberania alimentar. O agricultor acaba forçado a vender as terras porque perderam suas sementes crioulas”, avalia o agrônomo.
Roças contaminadas por veneno
Não são apenas os animais que escapam dos territórios sojeiros, mas também a deriva do veneno pulverizado. Outro efeito do uso de agrotóxicos é a contaminação das roças.

Na comunidade Santo Antônio do Costa, em São Luiz Gonzaga (MA), onde vive a quilombola Emília Costa, diversas roças foram contaminadas pelo veneno da fazenda vizinha somente nos primeiros meses deste ano. “São 11 famílias que não vão ter sua produção. Já não vão ter mais arroz, milho, feijão. Perderam tudo que plantaram”, revela.
A situação não é diferente na comunidade Pedrinhas (BA). Bernardino Alves Barbosa, que é formado técnico agrícola, conta que a contaminação por agrotóxicos trazidos pela água é um grande desafio para sua produção agroecológica.
“O pessoal pergunta se eu produzo orgânico. Eu planto orgânico, mas a água que molha a minha área vem de nascentes que estão nas fazendas do agronegócio. Então minha água que vem no rio já está contaminada”, explica.
Como resultado, ele percebe que muitas plantas estão morrendo. Sejam cultivos ou mesmo a mata ciliar que passa pelos rios. “Hoje é raro você encontrar um mato verde no rio, você chega lá e só vê galhos secos em contato com a água”, lamenta.
Insegurança alimentar
Em Correntina, os agricultores também estão passando a depender mais do mercado para suprir sua alimentação. “Em vez de cultivar, o pessoal está comprando produtos que, muitas vezes, nem conhecem de onde está vindo, ou como foram plantados”, explica Barbosa.
Na região, até mesmo a farinha de mandioca, que antes ficava estocada de um ano para outro, hoje passou a ser comprada. “Não está tendo mais aquela fartura de antigamente”, explica o agricultor.
Como consequência, novos produtos têm começado a fazer parte da alimentação de comunidades no Matopiba, como sinaliza Milena Evangelista. “Hoje eles têm muito mais contato com alimentos industrializados e ultraprocessados”.
Em sua pesquisa de mestrado, a socióloga produziu um estudo de caso sobre o município de Campos Lindos, no nordeste do Tocantins. Após o avanço do agronegócio com o Matopiba, o município se tornou a quarta maior economia do estado.

Essa riqueza, porém, não se refletiu em uma melhora na vida das famílias locais. Pelo contrário, em sua pesquisa, Evangelista observou a relação entre o cerco da soja e o aumento da insegurança alimentar no município. “O agronegócio inoperou os modos de vida tradicionais alimentares das famílias”, afirma.
Os dados da PAM mostram que Campos Lindos perdeu cerca de 2.400 hectares de área plantada de arroz na última década.
Como resultado da concentração de capital no município, em entrevista à pesquisa de Evangelista, os agricultores que conheciam o Matopiba afirmaram acreditar que o acrônimo se tratava do nome de uma empresa. “É interessante porque tem esse discurso do Matopiba ser uma riqueza natural do país, que a nossa agricultura é o nosso forte, mas na realidade, ela é totalmente cooptada por transnacionais”.
Um relatório publicado em 2018 pelo Greenpeace mostrou que, após três anos do decreto do Matopiba, 58% de seus municípios seguiam pobres e com indicadores de qualidade de vida piores do que a média de seus estados.
“A gente segue vivendo e produzindo”
A construção de uma narrativa heroica do agro em relação ao Matopiba parte também da invisibilização da produção agrícola dos povos e comunidades tradicionais e da própria biodiversidade do Cerrado. Evangelista explica que o bioma é historicamente descrito como uma área onde não se produzia nada, além de um vazio demográfico. “Um território muito grande e desperdiçado onde tinha-se o imaginário de miséria onde o agro ia chegar para sanar os problemas”. Esse apagamento de populações locais e de suas relações com a terra funciona mais como uma profecia autorrealizável – o agro tem criado bolsões de vazios de biodiversidade por onde avança.
Em contrapartida, movimentos sociais de povos e comunidades tradicionais têm protagonizado a resistência dos sistemas alimentares arrastados pelas cercas e monoculturas. “A gente segue vivendo e produzindo mesmo diante das dificuldades, cultivando o bem-viver, trabalhando e vivendo em harmonia com a terra”, resume a agricultora Ariomara Alves Pessoa, da comunidade ribeirinha Brejeira, localizada em Santa Filomena (PI). Por lá, o cultivo de feijão aumentou em 1.717 hectares de 2015 para cá. Ariomara faz parte do Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado. Em suas redes sociais, o coletivo compartilha fotos de colheitas de uma imensa diversidade de alimentos.
O agrônomo Laelson Ribeiro também destaca uma conquista: as comunidades quilombolas do Tocantins foram contempladas pelo programa federal Arroz da Gente, lançado em junho de 2025 e coordenado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que tem incentivado o cultivo do arroz, da mandioca e da abóbora no estado. “Os quilombolas são detentores dos saberes dessa produção, mas haviam deixado de produzir essas culturas. Agora estão recebendo equipamentos e auxílio com armazenagem para voltarem a produzir. Isso tem dado um trabalho árduo de resgate de sementes crioulas”, explica Ribeiro.
Já no Maranhão, o sociólogo Marcelo Carneiro, professor do programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), acredita que há uma invisibilização da sofisticação e da produtividade da agricultura familiar que resiste ao pacote de produção do agronegócio. “Ao contrário do que dizem, essa produção não é atrasada”, afirma. O professor defende que os dados da PAM também invisibilizam essa produção, principalmente em relação ao plantio da mandioca.
A PAM é uma estimativa anual da produção das principais lavouras em todos os municípios do país, com base em um questionário aplicado por agentes do IBGE com as secretarias municipais de agricultura, os órgãos estaduais de extensão rural e as cooperativas agrícolas. “Eu tenho muita restrição a esses dados. Uso, e acho que tem havido declínios inegáveis, como o do arroz. Mas acho que alguns [declínios] não são tão fortes quanto aparecem nos dados, então tento produzir nossas próprias estatísticas”, explica Marcelo Carneiro.
Ele participou de uma pesquisa junto à Rede Mandioca do Maranhão, que reúne agricultores de 23 municípios maranhenses. Foram 409 agricultores ouvidos. O levantamento destacou que a maioria dos agricultores familiares plantaram arroz, feijão, milho e mandioca para a safra de 2023/2024. Já na safra de 2022-2023, 79,7% dos participantes afirmaram terem colhido mandioca, 79,1% colheram feijão e 64,5% colheram arroz.
