
Famílias do acampamento Benedito Gomes denunciam um episódio de intoxicação por agrotóxicos após uma pulverização realizada por um fazendeiro, no município de Perobal (PR), próximo a Umuarama. A denúncia foi encaminhada à Promotoria de Justiça, por meio do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Proteção aos Direitos Humanos do Ministério Público do Paraná, no último dia 1º de abril.
O caso envolve a possível contaminação de famílias que vivem na área e levanta preocupações quanto aos riscos à saúde e ao meio ambiente.
A aplicação do produto ocorreu no dia 28 de março de 2026, por volta das 18h, em uma área próxima às moradias das cerca de 430 famílias acampadas. A pulverização teria sido feita com equipamento acoplado a trator, com indícios de uso de herbicida, embora não tenha sido possível identificar com precisão a substância utilizada.
Testemunhas afirmam que a deriva do agrotóxico foi imediata, acompanhada de forte odor que se espalhou pelo local. Cerca de 20 pessoas apresentaram sintomas como irritação na garganta, tosse e dores de cabeça. Também há relatos de possível impacto sobre uma lavoura coletiva de feijão mantida pelas famílias.
A área corresponde à Fazenda Tiburi, um imóvel público alvo de disputa fundiária há cerca de duas décadas. Em decisão judicial recente, foi reconhecida a irregularidade da ocupação por fazendeiros, com determinação de desocupação e destinação da área para fins de reforma agrária. Apesar disso, segundo a denúncia, o atual ocupante estaria descumprindo as determinações legais, incluindo a proibição de novos plantios.
A denúncia também aponta possíveis violações à legislação ambiental vigente, especialmente no que se refere às normas que regulam a aplicação de agrotóxicos em áreas próximas a núcleos populacionais. A regulamentação estabelece restrições quanto ao risco de deriva em direção a habitações, além de prever distâncias mínimas de segurança.
Diante dos fatos, os denunciantes solicitam a apuração imediata do caso, a realização de fiscalização no local para interromper eventuais contaminações e a responsabilização dos envolvidos. Os documentos protocolados incluem relatos técnicos e registros audiovisuais do momento da aplicação, reforçando a gravidade da situação.
Fazendeiro viola decisão judicial
Ao longo das últimas duas décadas, a Fazenda Tiburi tem sido palco de conflitos entre fazendeiros e famílias camponesas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O imóvel possui cerca de 215 hectares e pertence ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra-PR).
Desde o dia 16 de fevereiro, centenas de famílias Sem Terra ocupam a área com o objetivo de pressionar o Incra a destinar o imóvel à Reforma Agrária, já que a terra vem sendo utilizada de forma irregular por fazendeiros há aproximadamente 20 anos.
O caso é objeto de uma Ação Civil Pública (5001061-24.2022.4.04.7004/PR), ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2022, após a identificação de irregularidades na tentativa de transferência da terra pública para um suposto proprietário. Segundo o MPF, os requerentes não se enquadravam como agricultores familiares e não dependiam da área para subsistência. A investigação aponta que se tratava de um núcleo familiar de produtores de médio porte, com outras propriedades em Toledo (PR) e arrendamentos no Mato Grosso do Sul.
O Incra já havia notificado os ocupantes irregulares no início de fevereiro para deixarem a área no prazo de 30 dias. Foi autorizado apenas o direito à colheita da safra existente, predominantemente de soja. No entanto, segundo relatos, novos plantios estariam sendo realizados, agora com uso do agrotóxico como ameaça química às famílias acampadas. .
As famílias do acampamento Benedito Gomes estão no local há cerca de um ano, anteriormente ocupando uma área em Umuarama. No Paraná, cerca de 5 mil famílias Sem Terra vivem atualmente em acampamentos, algumas há mais de 30 anos, aguardando acesso à terra e condições dignas de vida no campo.
