Relatório aponta impactos de agrotóxicos e avanço de mediação de conflitos em terras Guarani no MS

Da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Um relatório produzido pelo Comitê da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida em Dourados-MS e pela Fundação Oswaldo Cruz Ceará, em parceria com a Universidade Federal da Grande Dourados, analisa os efeitos da exposição a agrotóxicos em comunidades indígenas e camponesas de Mato Grosso do Sul. O estudo reúne dados de campo, bases públicas de saúde e literatura científica para compreender como o uso intensivo de venenos agrícolas afeta territórios, modos de vida e a saúde coletiva.  

Os resultados indicam forte relação entre áreas de monocultivo — especialmente soja e milho — e a incidência de intoxicação por agrotóxicos. Segundo o documento, há uma “correlação entre produção agrícola e intoxicação”, já que municípios com maiores níveis de produção são também aqueles com maiores registros de contaminação. 

Entre 2006 e 2024, foram registradas 4.192 notificações de intoxicação no estado, média de cerca de 20 casos mensais, sendo a residência o principal local de ocorrência, o que evidencia exposição cotidiana e prolongada. 

A pesquisa de campo mostra que 86,4% das pessoas entrevistadas já sofreram intoxicação por agrotóxicos, principalmente por via respiratória, além de contato cutâneo e ingestão de alimentos contaminados. Sintomas como dor nos olhos, náuseas, diarreia, fraqueza e vômitos aparecem com frequência e são compatíveis com quadros clínicos descritos na literatura. 

Grande parte dos participantes relata exposição por um ano ou mais, configurando quadros subcrônicos e crônicos. O relatório destaca ainda que há “exposição involuntária subcrônica e crônica aos agrotóxicos” nas comunidades analisadas. Entre os problemas de saúde autodeclarados estão doenças circulatórias, renais, respiratórias, imunológicas e câncer, além de relatos comunitários de aumento de autismo em crianças e cardiopatias congênitas em recém-nascidos, em um contexto de forte uso de pesticidas e subnotificação de casos no Sistema Único de Saúde. 

Mais de 90% das pessoas entrevistadas afirmam que áreas de produção para subsistência são atingidas pela deriva de agrotóxicos, prejudicando quintais agroflorestais. O documento aponta “prejuízo à soberania alimentar pela exposição de quintais agroflorestais a agrotóxicos” e registra conflitos socioambientais associados à pulverização, inclusive com relatos de uso dessas substâncias como instrumento de pressão territorial. 

Criação de GT nacional para mediação de conflitos

Diante da gravidade dos conflitos nas terras Guarani do estado, foi instituído um Grupo de Trabalho por meio do comitê gestor do PRONARA. O GT terá prazo de 180 dias para apresentar um plano de mediação de conflitos, voltado à proteção dos territórios, à redução da violência e à garantia de direitos das comunidades afetadas.

A iniciativa dialoga com as conclusões do relatório, que defendem a aplicação do princípio da precaução, o fortalecimento da vigilância em saúde, a restrição da pulverização de agrotóxicos e a ampliação de pesquisas epidemiológicas de longo prazo nas populações expostas. 

Confira o relatório completo aqui

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