E-book do Idec revela que 57 mil mortes anuais no Brasil são atribuíveis ao consumo de ultraprocessados. Material desmonta mitos da indústria, expõe contaminação por agrotóxicos em nuggets, requeijão e biscoitos, e documenta interferência corporativa em políticas públicas alimentares.

Por Rogério Florentino
Do Conexão MT
Levantamento do Instituto de Defesa de Consumidores desmonta dez mitos da indústria sobre a “comida da mentira” e expõe interferência corporativa em políticas alimentares
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) publicou o e-book “Não se deixe enganar: 10 verdades sobre a comida da mentira”, um dossiê que reúne evidências científicas contra a indústria de alimentos ultraprocessados. O material aponta que o consumo desses produtos está associado a 57 mil mortes anuais no Brasil — número superior ao de homicídios — e revela que vários deles carregam resíduos de agrotóxicos, incluindo glifosato, classificado como provavelmente cancerígeno pela Organização Mundial da Saúde.
Mortes silenciosas na prateleira do supermercado
O dado sobre as 57 mil mortes anuais vem de pesquisa conduzida por equipes do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Nacional do Chile. A estimativa considera a relação entre o consumo regular de ultraprocessados e o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos, obesidade e câncer.
Esses produtos levam na composição excesso de sódio, açúcares adicionados e gorduras, além de aditivos alimentares como corantes, aromatizantes, edulcorantes e emulsificantes. A indústria os apresenta como alimentos. O Idec os chama de “comida da mentira”.

Veneno dentro do pacote
A publicação “Tem Veneno Nesse Pacote”, com dois volumes já lançados pelo Idec, desmentiu a alegação de que ultraprocessados estariam livres de agrotóxicos. O estudo analisou categorias de produtos entre os mais consumidos no país — inclusive de origem animal — e detectou resíduos de pesticidas em boa parte deles.
Entre os contaminados estão empanados de frango (nuggets), requeijão, hambúrguer, salsicha, bebida à base de soja, bisnaguinha, biscoito de água e sal e bolacha recheada. O levantamento revelou o que o Idec chamou de “perigo duplo”: além dos danos crônicos à saúde pelo próprio ultraprocessamento, há contaminação por venenos como o glifosato.

A indústria joga sujo
O dossiê dedica um capítulo à interferência corporativa em políticas públicas. Segundo o material, grandes corporações do setor investem milhões em publicidade, financiam estudos que exageram características pontuais dos produtos, patrocinam atletas e celebridades para transmitir imagem de saúde e chegam a sustentar uma ala política favorável a seus interesses comerciais.
O “Dossiê Big Food”, também produzido pelo Idec, documenta oito casos concretos de interferência da indústria em políticas de alimentação no país. Um exemplo citado no e-book: em 2020, o Ministério da Agricultura e Pecuária solicitou revisão do Guia Alimentar para a População Brasileira — documento oficial do Ministério da Saúde publicado em 2014, referência para a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e modelo para guias alimentares na Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, México e Uruguai. A revisão não aconteceu.
A tentativa de prorrogar a implementação da rotulagem nutricional frontal — a “lupa” que obriga fabricantes a alertar sobre excesso de açúcar, sódio e gordura saturada — foi outro episódio documentado. A indústria tentou adiar a norma um dia antes de ela entrar em vigor. O Idec recorreu à Justiça Federal de São Paulo e obteve liminar para manter o prazo original.
Reformulação não resolve
O material derruba ainda o argumento de que a reformulação dos produtos tornaria os ultraprocessados saudáveis. Modificar ingredientes isolados — reduzir sódio aqui, adicionar fibra ali — não muda a natureza do produto. A remoção de um ingrediente crítico frequentemente vem acompanhada de substitutos igualmente problemáticos: maltodextrina, açúcar invertido, gordura interesterificada, proteína isolada de soja. Em 2023, a OMS publicou diretriz recomendando que edulcorantes não sejam usados como estratégia de controle de peso ou prevenção de doenças crônicas.
Política tributária favorece o ultraprocessado
Desde a década de 1970, o sistema tributário brasileiro beneficia a indústria de ultraprocessados. Em alguns estados, macarrão instantâneo paga a mesma alíquota de ICMS que arroz e feijão. O IPI de refrigerantes e achocolatados é quase zero, equiparado ao da água mineral. Salsichas, biscoitos e margarina recebem isenções fiscais por integrarem a cesta básica em determinados estados.
A cadeia produtiva da soja — base de muitos ultraprocessados — tem renúncia fiscal quase o dobro da estimada para toda a cesta básica, calculada em R$ 30 bilhões. Enquanto isso, quem coloca comida de verdade na mesa dos brasileiros é a agricultura familiar: 87% da mandioca, 70% do feijão e 34% do arroz nacionais saem de pequenas propriedades rurais, segundo o Censo Agropecuário do IBGE.

Experiência chilena mostra caminho
O Chile adotou em 2016 um modelo de advertências em formato de octógono nos rótulos de ultraprocessados — pioneiro no mundo. Uma pesquisa publicada no The Lancet em 2021 registrou queda no consumo dos produtos com alertas: 23,8% nos altos em calorias, 26,7% nos altos em açúcar e 36,7% nos altos em sódio. Um estudo da revista Nutrients de 2022 mostrou que a redução não gerou prejuízos para a indústria de alimentos chilena. No Brasil, pesquisa citada pelo Idec indicou que o aumento no preço de bebidas adoçadas desestimula o consumo e promove substituição por água, café e leite.
O e-book do Idec defende o fortalecimento do Guia Alimentar, a ampliação de políticas regulatórias sobre rotulagem e publicidade de ultraprocessados e o incentivo à agroecologia e à agricultura familiar como alternativa ao modelo centrado em commodities.
