Crise na maior transnacional do agronegócio

Bayer enfrenta pesadas críticas após compra da Monsanto, e acionistas votam pela demissão da diretoria

 

A primeira assembleia de acionistas da gigante alemã Bayer após a compra da Monsanto teve um resultado histórico no mundo corporativo europeu. 55,5% dos acionistas votaram pela demissão da diretoria da empresa, incluindo o atual CEO Werner Baumann, e 33,6% votaram pela demissão do conselho de administração. Números desta grandeza atingem pela primeira vez uma empresa listada na bolsa de valores alemã. Em geral, os votos pela demissão não passam de 1%.

Os motivos dos votos contrários, no entanto, são diversos. Enquanto movimentos sociais criticam a empresa pelos perigos causados por seus produtos – agrotóxicos, sementes transgênicas e remédios – os grandes acionistas estão preocupados com a queda nas ações devido aos processos contra a Monsanto nos EUA, agora herdados pela Bayer. Em 2018, o valor total das ações teve queda de 38%, e a empresa foi rebaixada pela S&P para o grau BBB, o último nível antes de ser considerada uma ação-lixo.

Assim como todos os anos, a Coordenação Contra os Perigos da Bayer e a Articulação de Acionistas Críticos, em conjunto com diversos movimentos organizou um protesto em frente ao centro de convenções onde a assembleia de acionistas foi realizada, na cidade de Bonn, na Alemanha. O protesto contou com agricultores orgânicos, muitos apicultores e ativistas do campo ambiental. Mas a presença mais marcante foi a do movimento Fridays For Future: 500 adolescentes marcharam do centro de Bonn até o local do ato, gritando slogans anti-capitalistas contra a empresa. O movimento, iniciado pela jovem sueca Greta Thunberg, se espalhou pela Europa. Jovens de vários países deixam de ir à escola às sextas-feiras para protestar contra o aquecimento global.

Além do protesto, que confronta diretamente os acionistas na entrada do local da assembleia, outra estratégia é a utilização de ações da empresa para participação crítica na assembleia. Trabalhadores aposentados ou pequenos poupadores que possuem ações da empresa cedem à Articulação de Acionistas Críticos o direito de fala na durante a assembleia. Assim, 34 militantes puderam expor suas críticas a atuação da empresa e pedir explicações diretamente à diretoria e ao conselho fiscal da Bayer.

Umas destas falas foi de Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, convidado para o evento pela Misereor e pela Articulação de Acionistas Críticos. O Brasil, como um dos maiores mercados da Bayer no mundo, tem importância central nos resultados da empresa. Em sua fala, Alan denunciou as intoxicações e envenamento da água causados pelos agrotóxicos da Bayer, bem como o apoio ao governo de extrema-direita vigente no país.

“Em 2018, o setor que defende os grandes empresários do agronegócio, incluindo as multinacionais do veneno, foram peça-chave para a eleição do presidente de extrema-direita que hoje governa nosso país. Em troca, somente nos 100 primeiros dias de governo, foram autorizados 152 novos agrotóxicos para venda no Brasil”, afirmou o representante brasileiro.

Uma das perguntas feitas por Alan, e não respondidas pelo CEO Werner Baumman se referiu à reforma da previdência: “A ABAG e o Sindiveg, associações de classe das quais Bayer e Monsanto fazem parte, apoiam a reforma da previdência do presidente de extrema-direita Bolsonaro, que dificulta a aposentadoria de trabalhadores rurais. A Bayer acha justo a retirada de direitos e o aumento da exploração dos trabalhadores rurais brasileiros?” Veja o discuros completo aqui.

Christian Russau, da Articulação de Acionistas Críticos, citou em sua fala estudo da UFMT sobre uso de agrotóxicos e câncer no MT: “O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e o estado de Mato Grosso detém o recorde de utilização no país. Por ano, são utilizados 140 mihões de litros de agrotóxicos no estado.” Christian trouxe dados demonstrando que nos municípios com maior presença de monoculturas, a taxa de incidência de câncer é de 224 casos para cada 100.000 habitantes, enquanto nos municípios com prevalência de atividades turísticas, a taxa 8 vezes menor (53). Christian questionou a empresa: “qual a quantidade e o faturamento da Bayer com remédios para câncer no estado do Mato Grosso. A pergunta também não teve resposta.

Sarah Schneider, da Misereor, entidade da igreja católica na Alemanha, questionou a Bayer sobre os agrotóxicos altamente tóxicos vendidos pela empresa nos países do sul global. “A Bayer vende nestes países produtos já proibidos na Europa por conta de seus riscos reconhecidos. O uso seguro de agrotóxicos não é uma realidade. A Bayer está preparada para cessar voluntariamente a venda de agrotóxicos altamente tóxicos (HPPs) e dos produtos já proibidos na União Europeia?”, questionou Sarah. A esta pergunta, o CEO da Bayer afirmou apenas que a empresa segue as leis dos países onde atua.

Devido ao momento agudo vivido pela empresa alemã, o número de pessoas inscritas para falas chegou a 70, algo inédito neste tipo de reunião, o que fez com que a votação final acontecesse apenas às 23h.

Ainda que os motivos que levaram os acionistas a votar contra a diretoria sejam puramente econômicos, o resultado final da assembleia foi comemorado pelos movimentos. A Coordenação Contra os Perigos da Bayer afirmou que “nunca antes houve protestos tão grandes nas ruas e no microfone dentro da assembleia”.

Como o Conselho de Administração não foi demitido, ainda há expectativas sobre a permanência ou não do CEO da Bayer no cargo.



'Crise na maior transnacional do agronegócio' possui um comentário

  1. 30 de abril de 2019 @ 20:23 Bayer é criiticada por vender no Brasil agrotóxicos proibidos na Europa

    […] LEIA A ÍNTEGRA DO TEXTO AQUI […]

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