Experiências agroecológicas revelam a força dos territórios no Oeste do Paraná 

A caravana agroecológica visita o Quilombo Apepu, cuja paisagem contrasta com o entorno tomado pelo milho.
A caravana agroecológica visita o Quilombo Apepu, cuja paisagem contrasta com o entorno tomado pelo milho. Crédito: Ana Paula Soukef

Na rica terra-roxa do Oeste do Paraná, onde as lavouras de soja ou milho transgênicos, conforme a safra, se estendem até o horizonte, uma rede vibrante de resistência camponesa, indígena e quilombola reafirma que a terra representa, antes de tudo, o direito à vida e à cultura. No final de maio, a região foi visitada por caravanas agroecológicas realizadas pela Articulação Nacional de Agroecologia, com o apoio de organizações e movimentos sociais do território, em preparação ao 5º Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que acontecerá nesse território, no Paraná, no ano que vem. Foram percorridos 11 municípios e visitadas mais de 40 experiências que demonstram a vitalidade de um sistema agroalimentar que rompe com os padrões de cultivo do agronegócio.

Experiências resistem em um cenário de adversidades ao mesmo tempo que são responsáveis por um conjunto abundante de inovações sociais e produtivas

O maior desafio identificado por integrantes do movimento agroecológico de todo o Brasil nas diferentes rotas é a hegemonia do modelo de monocultura, que cerca e sufoca os territórios tradicionais. Essa pressão se manifesta de formas brutais:

Comunidades como a Terra Indígena Tekoha Ocoy e o Quilombo Apepu, para citar apenas dois exemplos, sofrem com a pulverização e a deriva de agrotóxicos feitas em propriedades vizinhas, o que compromete a produção de alimentos saudáveis e a saúde coletiva.

A crise climática também vem afetando os cultivos. O calor intenso e períodos de seca severa em dezembro e janeiro desafiam a produção, exigindo novas estratégias de manejo de solo e água. No Assentamento Ander Rodolfo Henrique, em Diamante d´Oeste, o produtor rural Leandro Rohden dá uma ideia dessa mudança: “Nessa região aqui, 10 dias sem chuva em dezembro, janeiro, é estiagem. O calor é terrível. De três, quatro anos para cá, já é seca”, disse ele.

A insegurança territorial também é uma realidade em várias comunidades. O povo Avá-Guarani enfrenta um histórico de desterritorialização causado pela criação do Parque Nacional do Iguaçu e pela construção da Usina de Itaipu, e ainda hoje luta pelo reconhecimento pleno de seus territórios. A visita permitiu compreender os desafios enfrentados pelas comunidades Avá Guarani na região, que foram impactadas pela perda de seus territórios tradicionais e tiveram sua situação agravada pela expansão do agronegócio.

Entre os municípios de Guaíra e Terra Roxa, a memória recente do povo Avá Guarani é atravessada por relatos de violência e medo, mas também de resistência. As comunidades narram ameaças constantes, ataques a áreas de retomada e episódios de intimidação que transformam o cotidiano em um exercício permanente de vigilância. Em meio à disputa por seus territórios tradicionais, famílias indígenas convivem com a insegurança e denunciam um ciclo de violações de direitos que, segundo organizações de defesa dos povos indígenas e órgãos públicos, se prolonga há anos na região Oeste do Paraná. 

Mais do que uma atividade de intercâmbio, a caravana constituiu um espaço de encontro entre diferentes realidades do campo agroecológico brasileiro. Ao aproximar participantes de experiências concretas desenvolvidas pelas comunidades Avá Guarani, por exemplo, a rota reafirmou a agroecologia como instrumento de fortalecimento dos povos indígenas, de proteção da biodiversidade e de construção de alternativas diante das crises socioambientais contemporâneas. As trocas realizadas ao longo do percurso contribuíram para ampliar o reconhecimento dos povos indígenas na produção de alimentos, na conservação dos territórios e na construção de futuros mais justos e sustentáveis.

Além da questão fundiária, há uma grande desigualdade no acesso a políticas públicas. Os especialistas em agroecologia que participaram das caravanas no entorno de Foz do Iguaçu identificaram essa questão. Eles reforçaram a ideia da importância da reforma agrária, acompanhada da ampliação do acesso à assistência técnica especializada, crédito e maquinário adaptado para a agricultura familiar e os sistemas agroflorestais.

As caravanas revelaram que as experiências visitadas resistem em um cenário de adversidades ao mesmo tempo que são responsáveis por um conjunto abundante de inovações sociais e produtivas, como o Turismo de Base Comunitária. No Quilombo Apepu, a criação de uma trilha pelo Parque Nacional do Iguaçu é uma ferramenta para reafirmar a presença histórica no território e gerar renda. No Colégio Estadual Indígena Teko Nemoingo, a articulação de saberes tradicionais dos anciãos (chamõi, em guarani) com a educação formal, utilizando hortas escolares para fortalecer o vínculo das novas gerações com a terra, aponta caminhos para uma educação intercultural, capaz de agregar o povo guarani nas cidades da tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina).

A integração na fronteira também faz parte dos desafios presentes na região. Experiências visitadas em Puerto Iguazú, na Argentina, mostram como o Grupo Mays – Monte Alimenta y Sana produz para autoconsumo, comercialização de produtos certificados com o selo “Agroecológico Misiones” e a realização de feiras de troca de sementes crioulas para conservar a biodiversidade local.

Valtair Correia, uma das lideranças do Quilombo Apepu, mostra a laranja Apepu que dá nome à comunidade, tradicionalmente usada pelas famílias para a produção de doces | Crédito: Ana Paula Soukef

Em Foz do Iguaçu, destaca-se a também a experiência da família de Marciana Fernandes de Oliveira e Estevam Martins de Souza com a pesca artesanal, que criam peixes em tanques-rede no rio Iguaçu, com total autonomia desde a produção da ração até o beneficiamento. Operando como uma agroindústria familiar, produzem derivados de pescado, como linguiça e bolinhos, que são fornecidos para a merenda escolar via Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

O cooperativismo e a inovação camponesa se destacam nos assentamentos do Movimento das/os Trabalhadoras/es Sem Terra (MST), que utilizam a Cooperativa de Industrialização e Comercialização Camponesa (COOPERCAM) para processar a produção agroecológica, com grande protagonismo feminino no beneficiamento de alimentos.

Destacam-se também o uso de bioinsumos (fungos e bactérias) para controle de pragas e os Sistemas Agroflorestais (SAF). Experiências como a de Selmiro Finkler, no Assentamento 16 de Maio, em Ramilândia, mostram que é possível recuperar a biodiversidade da Mata Atlântica e produzir alimentos em terrenos antes degradados.

Para Paulo Petersen, integrante do núcleo executivo da ANA e enviado especial à COP 30 para a Agricultura Familiar, o fortalecimento desses territórios depende da transição do conceito de “terra” para o de “território”, que implica na construção de capacidades coletivas e redes territoriais. “A articulação dessas ilhas de agroecologia é essencial para disputar o modelo de desenvolvimento da região contra a lógica do agronegócio que fagocita culturas locais”, afirmou.

Outro ponto destacado é o impacto cultural e financeiro do agronegócio na região. Jaqueline Andrade, advogada da Terra de Direitos e integrante do Grupo de Trabalho Biodiversidade da ANA, comentou sobre o impacto cultural e financeiro do agronegócio na região. “Se você vê todo o tempo aquele horizonte do agronegócio, e o quanto, supostamente, aquilo gera de riqueza, imagina o impacto dessa imagem e dessa concepção sobre o agronegócio nas mentes das pessoas”, explicou.

Uma das fundadoras da ANA e ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Maria Emília Pacheco ressaltou a importância da história e da memória para a existência no território, utilizando o exemplo da laranja apepu, no Quilombo Apepu, e da Tekoha Ocoy como símbolos de ancestralidade. Apepu é uma variedade de laranja amarga (Citrus aurantium) originária da região do Oeste do Paraná, também encontrada no Paraguai e na Argentina, conhecida pelo sabor ácido e amargo e por seus múltiplos usos alimentares, medicinais e na perfumaria, conforme relatado pelos moradores do Quilombo que leva seu nome. 

“Nomes indígenas, como “Okoy” (que significa garça, em guarani), estão ameaçados, assim como a língua e a cultura dos povos originários. Pacheco defende a necessidade de reconhecer a agroecologia como um meio de conectar os povos ao seu lugar e à sua história. “Nós estamos diante do direito de ficar. São termos completamente ameaçados, mas que ficam nos símbolos”, explicou Pacheco.

*Este é um artigo de opinião e não expressa necessariamente a linha editorial do Brasil de Fato

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *