
Por Leonardo Fernandes*
Do Brasil de Fato
Quando Rachel Carson publicou sua obra “Primavera Silenciosa” na década de 1960, ela não apenas lançou um alerta científico, mas ofereceu ao mundo uma poderosa metáfora literária sobre o que acontece quando o silêncio da morte substitui o canto dos pássaros. Essa mesma sensibilidade guiou nossos passos entre os dias 27 e 29 de maio de 2026, quando a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, abriu suas portas para o 3° Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente, o Sibsa. No coração de um estado marcado pelas cicatrizes profundas das monoculturas de algodão e soja, fomos 619 vozes pulsantes, em que a academia e o saber popular se deram as mãos em uma mística de resistência e esperança.
Ali, o cheiro da terra e o sabor dos alimentos saudáveis confrontaram a frieza dos números que envenenam o nosso Brasil.
Nossa participação nesse simpósio não foi apenas figurativa. A Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, que desde 2011 denuncia o modelo predatório do agronegócio, teve a honra de organizar a Tenda Rachel Carson. Esse espaço não foi apenas um local de palestras, mas um abrigo vibrante para 52 atividades que uniram pesquisadores comprometidos e movimentos sociais, que representaram 36% de todo o público presente. Ali, o cheiro da terra e o sabor dos alimentos saudáveis confrontaram a frieza dos números que envenenam o nosso Brasil.
As denúncias trazidas pelos nossos companheiros e pesquisadores são urgentes e cortantes. O país consumiu cerca de 1,7 milhão de toneladas de produtos formulados de agrotóxicos em 2024, um volume absurdo que despeja sobre o solo cerca de um bilhão de litros de veneno todos os anos. Mato Grosso, infelizmente, desponta como o epicentro dessa contaminação, liderando o uso intensivo de substâncias tóxicas por causa do modelo agroexportador. O que vimos nas rodas de saberes foi o relato de um Brasil envenenado por drones e pulverizações aéreas que invadem territórios indígenas, quilombolas e camponeses, transformando o direito de produzir comida em uma sentença de adoecimento.
A ciência que defendemos e que ecoou na Tenda Rachel Carson é uma ciência com lado, com cor e com território. Reafirmamos que a neutralidade científica é um mito perigoso quando se trata de vidas humanas. Como bem pontuou a pesquisadora e presidente do Sibsa, Karen Friedrich, não podemos ser neutros diante de substâncias que foram criadas como armas químicas e hoje são lucros nas mãos de poucas transnacionais. É preciso coragem para enfrentar o lobby pesado do agronegócio e o desmonte regulatório que permitiu o avanço do chamado Pacote do Veneno em 2023.
Nesse cenário de lutas, a homenagem recebida pela nossa campanha no encerramento do Sibsa nos trouxe um calor imenso ao peito. Ser reconhecidos ao lado de gigantes como os professores Lia Giraldo e Wanderlei Pignati, referências éticas da saúde coletiva, é um bálsamo para quem enfrenta o sol a pino das disputas territoriais. Receber um reconhecimento junto a uma homenagem ao grande cineasta Sílvio Tendler é uma enorme responsabilidade. Esse prêmio não pertence a uma coordenação, mas a cada militante que constrói a vigilância popular nos rincões do país e a cada camponês que insiste em semear a agroecologia.
O Sibsa nos mostrou que a saúde não se resume à ausência de doenças, mas é o resultado de uma vida em harmonia com os bens comuns. O Grupo da Terra, que reúne 23 movimentos sociais, lembrou que a política de saúde precisa chegar de fato ao campo, à floresta e às águas. Vimos que a resistência também se faz com arte, como nos filmes “Sukande Kasáká” e “Terra Nova”, que foram premiados e mostraram que o cinema é uma arma poderosa contra a invisibilização das tragédias ambientais.
Saímos de Cuiabá fortalecidos pelas determinações plasmadas na Carta do Sibsa, um documento que sintetiza nosso compromisso com a democracia e a justiça socioambiental. A agroecologia não é apenas uma alternativa técnica, é o anúncio de um projeto de sociedade em que a comida é sagrada e a água é limpa. Seguiremos firmes, pois, enquanto houver veneno no prato e no solo, haverá a nossa voz denunciando o lucro que mata e anunciando a vida que floresce. A primavera que desejamos não será silenciosa; ela será cantada por todas as vozes que defendem a soberania alimentar e os territórios livres de agrotóxicos.
*Leonardo Fernandes é jornalista, militante do MST e integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida
**Esta é uma coluna de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
