Chuva de Veneno: documentário denuncia avanço dos agrotóxicos no Ceará

Obra lançada em Fortaleza expõe os riscos da nova legislação estadual e resgata o legado de luta de Zé Maria do Tomé

Da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida

O lançamento do documentário Chuva de Veneno, produzido pelo mandato do vereador Gabriel Biologia (PSOL) e lançado na primeira semana de maio na Câmara Municipal de Fortaleza (CE), reacende o debate sobre os impactos da pulverização aérea de agrotóxicos no Ceará e a resistência histórica das comunidades camponesas, indígenas e quilombolas contra a chamada “chuva de veneno”.

O filme resgata a trajetória de luta de Zé Maria do Tomé, agricultor e ativista assassinado em 21 de abril de 2010 após denunciar os impactos dos agrotóxicos na região de Limoeiro do Norte, no Ceará.

A produção revisita a mobilização popular que resultou na aprovação da chamada Lei Zé Maria do Tomé, legislação que proibiu a pulverização aérea de agrotóxicos no estado. Em 2024, no entanto, a lei sofreu flexibilizações que voltaram a permitir o uso de drones agrícolas para aplicação de venenos, medida alvo de críticas por movimentos sociais e organizações populares.

De acordo com Gabriel Biologia, o documentário surge em um contexto de avanço acelerado dos agrotóxicos e de retrocessos legislativos que ameaçam a saúde pública e o meio ambiente.

“Nosso mandato entende que é preciso disputar o debate público com responsabilidade e compromisso com a vida. Por isso, consideramos essencial construir materiais informativos que dialoguem diretamente com a população sobre os impactos reais dessa política, especialmente para as comunidades rurais que convivem diariamente com a contaminação causada pelos venenos agrícolas”, afirma o vereador.

O parlamentar também questiona a narrativa de que a pulverização por drones seria mais segura. Segundo ele, não existe pulverização aérea sem risco de contaminação, principalmente diante da ausência de fiscalização efetiva e das condições climáticas do Ceará.

“Para realizar a pulverização de agrotóxicos com drones, é necessário que a velocidade do vento esteja em até 10 km/h. No entanto, a velocidade média dos ventos no Ceará é de aproximadamente 11 km/h”, destaca. O vereador afirma ainda que o mandato tem recebido denúncias frequentes de comunidades rurais sobre casos de intoxicação provocados pela pulverização aérea, atingindo crianças, professoras, trabalhadores e famílias inteiras.

É o que salienta a secretária-executiva da Rede de Agroecologia, Mulheres e Agroecologia (Rama), Ariana Gomes, ao afirmar que o documentário cumpre um papel central de denúncia e conscientização social.

“O documentário ‘Chuva de Veneno’ é importante por denunciar os impactos dos agrotóxicos sobre povos e comunidades tradicionais no Estado do Ceará e a utilização de drone que despeja veneno sobre as cabeças das pessoas. A obra dá visibilidade às violações sofridas por quilombolas, indígenas e camponeses, mostrando como a pulverização de venenos contamina territórios, águas e modos de vida”, afirma.

No mesmo sentido, Jakeline Pivato, da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida, destaca que o documentário contribui para preservar a memória das comunidades atingidas pela pulverização de agrotóxicos e fortalecer os processos de resistência popular no campo.

“O documentário cumpre um papel fundamental ao resgatar a memória da luta contra a pulverização aérea de agrotóxicos no Ceará e denunciar os impactos disso sobre os territórios. Ao mesmo tempo, fortalece a resistência dos territórios atingidos e amplia o debate público sobre os efeitos do agronegócio e da guerra química no campo, especialmente diante dos retrocessos recentes que ameaçam direitos conquistados historicamente.”

Na esteira da história, o deputado estadual Renato Roseno (PSOL/CE) relembra a luta e resistência para manter a Lei Zé Maria do Tomé aprovada em 2018 após intensa mobilização popular, mas passou a sofrer ataques constantes. Segundo ele, a flexibilização aprovada em 2024 abriu novamente espaço para a pulverização aérea com drones agrícolas no estado.

Roseno ainda avalia que o documentário retrata de forma pioneira a luta contra os agrotóxicos no Ceará. “Essa história é muito bem contada a partir do assassinato de Zé Maria do Tomé, um líder camponês que lutava contra a chuva de veneno e foi covardemente assassinado com 21 tiros em abril de 2010”, afirma.

O documentário reforça a denúncia dos impactos sociais, ambientais e sanitários dos agrotóxicos e busca fortalecer a mobilização popular em defesa da vida, da soberania alimentar e dos direitos das populações do campo. Confira:

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