Debate ocorreu na Tenda Rachel Carson, durante o 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (SIBSA), realizado em Cuiabá, entre os dias 27 e 29 de maio

Por Iris Pacheco
Da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida
A construção de uma ciência comprometida com os territórios, os povos e a vida esteve no centro do debate “Ciência em defesa da vida: pesquisadoras e pesquisadores na luta contra os agrotóxicos”, realizado durante o 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (SIBSA), na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), entre os dias 27 e 29 de maio. A atividade reuniu pesquisadores, integrantes de movimentos sociais, profissionais da saúde e organizações populares na Tenda Rachel Carson para discutir os caminhos históricos, políticos e metodológicos da produção científica no enfrentamento aos impactos dos agrotóxicos no Brasil.
Na abertura da roda de diálogos, Alan Tygel, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, destacou que a pesquisa científica sempre esteve presente na construção dessa articulação, mesmo antes de sua criação. Ele relembrou obras históricas que marcaram o debate crítico sobre os agrotóxicos, como “Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson (1962), os trabalhos de Adilson Paschoal, Ana Maria Primavesi, Sebastião Pinheiro e o livro “É veneno ou é remédio?”, publicado em 2003 pela Fiocruz.
“Precisamos do embasamento científico e da autoridade construída pela ciência para contrapor as dúvidas que estão sempre sendo semeadas pela indústria de agrotóxicos”, afirmou Tygel.

Dando continuidade à reflexão, a pesquisadora Karen Friedrich abordou os conflitos de interesse presentes na produção científica sobre agrotóxicos e denunciou o papel histórico dessas substâncias, inicialmente desenvolvidas como armas químicas e posteriormente transformadas em produtos lucrativos pela indústria. Ela relembrou a trajetória de Rachel Carson e a importância de traduzir a linguagem científica para a população.
“Quando a gente fala que a ciência não é neutra é para refletirmos sobre como a pesquisa está sendo desenvolvida e para onde ela está olhando”, disse Friedrich. Para a pesquisadora, é fundamental defender uma ciência aplicada em favor da população e comprometida com os problemas concretos vividos nos territórios.
Na mesma perspectiva, a agrônoma e pesquisadora Fran Paula refletiu sobre os desafios de produzir conhecimento em um contexto de forte lobby do agronegócio e destacou a importância das pesquisas articuladas com os movimentos sociais e os territórios. Ela também chamou atenção para a necessidade de construir uma ciência agrária que não seja baseada na ciência do cativeiro. “Precisamos construir um caminho da ciência no Brasil com outra ética e moral”, apontou.
A luta contra os agrotóxicos engloba várias frentes. Nesse sentido, o pesquisador Luís Cláudio Meirelles resgatou a participação histórica da agronomia na construção das legislações de controle dos agrotóxicos no Brasil, destacando o papel da categoria na construção da Lei nº 7.802/1989, antiga lei de agrotóxicos, considerada avançada até os dias atuais. Segundo ele, a atuação no campo regulatório é estratégica para impedir que substâncias perigosas sejam aprovadas. “A gente tem que ter uma estratégia muito bem construída para promover uma mudança no nascedouro destas substâncias”, pontuou. “Depois que são lançadas no ambiente, fica muito mais difícil controlar.”
Já Guilherme Franco Netto analisou o avanço das políticas de liberação dos agrotóxicos no país, especialmente da pulverização aérea, incluindo o uso de drones. Para ele, houve um desmonte dos sistemas de vigilância, monitoramento e regulação no Brasil. “Perdemos a incidência em todos os espaços”, afirmou.
O pesquisador também alertou para as graves subnotificações de intoxicações por agrotóxicos nos serviços de saúde e para a necessidade de fortalecer a atuação coletiva da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.
Resistência e vigilância popular

Ao mesmo tempo, as reflexões apontaram os impactos dos agrotóxicos sobre povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades camponesas como centro do debate. Fernanda Savicki, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), denunciou a violência sofrida por comunidades indígenas cercadas pelo agronegócio na região centro-oeste. “O confinamento dos indígenas em terras tomadas e cercadas pelo agronegócio faz com que essas comunidades não tenham outra relação de vida que não seja impactada pelos agrotóxicos”, destacou.
Ela também ressaltou o papel das pesquisas científicas na construção de peças jurídicas e ações internacionais em defesa das violações de direitos dos povos indígenas.
Ainda rememorando a história, o debate também abordou a construção do Dossiê Abrasco, considerado um marco na articulação entre ciência crítica e movimentos sociais. Fernando Carneiro relembrou o processo coletivo de elaboração do documento e destacou o papel da Campanha como uma das maiores experiências de vigilância popular do país. “Foi nossa primavera silenciosa”, ressalta.
A relação entre ciência, cultura e comunicação esteve no foco da intervenção de Murilo Souza, que destacou o papel do cinema, da arte e da pedagogia do território na luta contra os agrotóxicos. Segundo ele, é necessário produzir pesquisas conectadas aos problemas concretos vividos pelas comunidades e construir processos científicos transformadores.
Também participaram da mesa Jorge Machado, pesquisador da Fiocruz/PSAT, que abordou a necessidade de superar os modelos tradicionais da epidemiologia e avançar em dispositivos de monitoramento voltados para a ação nos territórios; Lina, da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), que destacou a escuta popular como estratégia central da vigilância; e Franco Antônio Lima, que apresentou a experiência de pesquisa participativa junto aos povos indígenas do Xingu e a produção do filme “Sukande Kasáká – Terra Doente”.
Ao longo da atividade, ficou evidente que a disputa contra os agrotóxicos também é uma disputa sobre qual ciência será produzida, para quem ela servirá e quais vidas serão priorizadas. Ao final, propôs-se a criação de uma rede nacional de pesquisadores sobre agrotóxicos articulada à Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, com o objetivo de fortalecer a troca de informações, a construção coletiva de pesquisas e a busca por financiamento independente que possa garantir avanços concretos junto aos territórios e suas reais necessidades.
