Organizações sociais denunciam farmacêutica Bayer por vender no Sul Global agrotóxicos proibidos na Europa

Ação de denúncia ocorreu durante a reunião anual de acionistas da empresa, que contou a participação de integrante da Campanha Contra os Agrotóxicos

Alan Tygel, representante da Campanha contra os Agrotóxicos

A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida denunciou a multinacional alemã Bayer por manter a comercialização de agrotóxicos considerados perigosos, e até proibidos na Europa, em países do Sul Global, como o Brasil. 

A denúncia foi feita por Alan Tygel, integrante da Campanha durante a reunião anual de acionistas da empresa, na última sexta-feira (24), para a qual a Campanha foi convidada pela Coordenação contra os Perigos da Bayer (CBG) a participar. 

A CBG é uma rede internacional que organiza com sucesso resistência contra uma das maiores corporações do mundo desde 1978. Essa resistência ocorre em todo o planeta e aborda todos os problemas associados à geração de lucros da Bayer.

Segundo Tygel, é contraditório que uma empresa com mais de um século de existência, presença global e capacidade tecnológica avançada continue apostando em um modelo agrícola que agrava crises ambientais e de saúde. “A Bayer teria plenas condições de investir em formas de produção de alimentos que respeitem o equilíbrio da natureza e a vida humana, como a agroecologia”, afirma.

Apesar disso, a empresa segue produzindo e exportando agrotóxicos, inclusive substâncias já banidas de seu país de origem. Esses produtos continuam sendo destinados a mercados com regulamentação mais frágil, como o brasileiro.

O Brasil permanece como o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Apenas em 2024, foram comercializadas cerca de 908 mil toneladas de ingredientes ativos, um aumento de 20% em relação ao ano anterior. O faturamento do setor chegou a 19 bilhões de dólares — valor superior ao orçamento de muitos órgãos responsáveis pela fiscalização desses produtos no país.

Além disso, o modelo é sustentado por incentivos públicos. Entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2025, empresas do setor receberam cerca de US$ 4,2 bilhões de dólares em isenções fiscais. Desse total, aproximadamente US$ 260 milhões de dólares estão associados à Bayer, que mantém uma presença robusta no Brasil, que inclui 109 produtos formulados a partir de 50 ingredientes ativos.

A prática levanta questionamentos sobre padrões duplos adotados pela indústria química global. “É possível uma empresa dizer que se preocupa com o futuro do planeta enquanto vende, em outros países, produtos rejeitados para sua própria população?”, questiona Tygel.

Relações políticas e interesses econômicos

As críticas à Bayer também envolvem sua atuação política. A empresa foi acusada de financiar campanhas eleitorais de Donald Trump, nos Estados Unidos, em 2016 e 2024. Segundo a denúncia, esse apoio teria contribuído para benefícios políticos, incluindo maior proteção frente a processos judiciais bilionários relacionados a seus produtos.

Nos Estados Unidos, a empresa é alvo de audiência na Suprema Corte pelo caso Monsanto v. Durnell, que ocorreu segunda-feira (27), e foi considerada decisiva para o futuro das ações judiciais sobre pesticidas.

Segundo JW Glass, do Center for Biological Diversity, uma vitória da Monsanto representaria uma grave injustiça e mostraria confiança excessiva em um sistema regulatório da EPA que, segundo ele, falhou repetidamente em exigir alertas adequados sobre riscos de câncer e outras doenças ligadas a pesticidas.

O centro da disputa é o glifosato, ingrediente do herbicida Roundup, associado em diversos estudos ao câncer e classificado em 2015 pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), um braço da Organização Mundial da Saúde (OMS), como “provavelmente carcinogênico para humanos” (Grupo 2A). A Monsanto (hoje, parte da alemã Bayer), que já gastou mais de US$ 11 bilhões com processos relacionados ao tema, busca uma decisão favorável que possa encerrar essas ações.

Diante desse cenário, organizações da sociedade civil cobram maior responsabilidade corporativa e transparência. Entre os questionamentos levantados estão o uso de recursos públicos brasileiros para ampliar lucros distribuídos a acionistas estrangeiros e a associação com setores políticos em busca de vantagens comerciais.

Nesse sentido, Tygel faz um apelo direto aos acionistas da empresa, pedindo que rejeitem a aprovação das gestões executiva e de supervisão da Bayer e apoiem propostas de organizações críticas à atuação da companhia.

Mais uma vez, o caso reacende o debate global sobre justiça ambiental, regulação de agrotóxicos e o papel de grandes corporações diante das crises climática, sanitária e alimentar.

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