Comunidades protegem sementes crioulas

GAZETA DO POVO, 03/11/2011

A “arca” das sementes é garantia de preservação

Diversidade de espécies agrícolas é protegida pelos bancos de sementes, que têm no Brasil a Embrapa como o maior exemplo, com 110 mil amostras

Publicado em 02/11/2011 | Londrina - Juliana Gonçalves, correspondente

O que aconteceria se as plantas sumissem? O desaparecimento da diversidade genética agrícola ocorre por diversos fatores, como desastres ambientais, a degradação de áreas ou a simples preferência do mercado por determinados tipos de alimento. Para conter a perda da biodiversidade, centros de pesquisa e entidades civis mantém bancos de preservação que garantem a sobrevivência de espécies. Algo como uma Arca de Noé dos novos tempos, mas direcionado à preservação da flora.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que, no último século, cerca de 75% de toda a diversidade genética agrícola do planeta tenha desaparecido, como o milho, que teria perdido milhares de variedades.

 / Amostras mantidas a 5°C duram até 5 anos; conservadas a -18°C duram até 20

Amostras mantidas a 5°C duram até 5 anos; conservadas a -18°C duram até 20

Proteção

Entre os principais objetivos dos bancos de sementes, ou bancos de germoplasma, como são cientificamente chamados, está o fornecimento de matéria-prima genética para pesquisas e para o desenvolvimento de novas variedades comerciais. No entanto, sua maior finalidade talvez seja proteger a produção de alimentos da perda de diversidade que se observa no campo e a possibilidade de recomposição de áreas degradadas.

Cada semente tem uma informação genética, com características específicas que podem ser favoráveis ao homem. “Se uma doença atingisse todas as variedades de feijão, uma espécie nativa armazenada poderia ter no código genético uma informação que conferisse resistência a essa doença”, exemplifica o agrônomo Ruy Inácio de Carvalho, professor da Pontifícia Universidade Católica de São José dos Pinhais.

Existem no mundo cerca de 1,5 mil bancos de sementes. No Brasil, a referência no assunto é o Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenar­gen), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Formado por uma rede de 170 bancos espalhados por todo o país e com 110 mil amostras, é um dos maiores bancos do mundo.

A Embrapa Soja, que fica em Londrina, abriga, desde 1975, um banco de germoplasma com aproximadamente 30 mil sementes diferentes de soja. Ali, há grãos do mundo inteiro que foram cedidos através de acordos. O maior fornecedor até hoje, segundo o agrônomo Marcelo Fernandes de Oliveira, curador do banco de sementes do local, foi o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, mas também há sementes vindas do Japão, China, Coreia e África.

O armazenamento dos grãos nos bancos é feito de duas formas: em curto e médio prazo ou em longo prazo. O que define isso é a temperatura das câmaras frias. Segun­do Oliveira, as amostras mantidas a 5ºC duram de quatro a cinco anos, depois precisam ser germinadas e renovadas. A conservação em longo prazo é feita a -18ºC e preserva os grãos por até 20 anos.

Todo o material dos bancos da Embrapa é de domínio público e está à disposição de qualquer pessoa. Os principais usuários do acervo são os programas de melhoramento.

Comunidades protegem espécimes crioulas

Longe dos centros de pesquisa, funciona outro tipo de banco de sementes, o comunitário. Mantidos por cooperativas ou associações de pequenos agricultores, esses locais armazenam sementes para garantir a produção do próximo plantio. Essa tem sido a alternativa utilizada por milhares de famílias de pequenos agricultores do semi-árido nordestino para enfrentar os longos períodos de estiagem e a consequente falta de alimento.

Desde a década de 80, os bancos de sementes têm contribuído de forma incontestável para devolver dignidade às famílias atingidas pela seca. Só no planalto de Borborema, região central da Paraíba, são 80 bancos comunitários que envolvem mais de três mil famílias. “Os grãos são armazenados em associações, escolas, casas. Eles utilizam cilos metálicos e, em alguns casos, garrafas PET”, conta Emanoel Dias, agrônomo da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA).

Segundo ele, um dos pontos positivos dessa experiência é o fato de os agricultores conservarem as sementes crioulas, as variedades locais totalmente adaptadas às condições da região. “Os programas governamentais de sementes oferecem variedades melhoradas, que normalmente não estão adaptadas à agricultura familiar”, acrescenta.

Contra contaminação

Para preservar a biodiversidade agrícola, além do armazenamento das sementes, existem outras formas, como a cultura de tecidos in vitro e até mesmo no campo. A AS-PTA, junto com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estão realizando um projeto em 18 municípios do Paraná e Santa Catarina para preservar a semente crioula. “O armazenamento é feito de forma viva, em campos de produção. O objetivo é não permitir a contaminação por sementes trangênicas”, explica o assessor técnico da AS-PTA, André Emílio Jantara.

Nesses casos, o banco “empresta” algumas sementes para o pequeno agricultor e, após



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