Morre agricultor que era acompanhado

Por Diário do Nordeste

Após 25 dias internado, no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), morreu, na manhã de ontem, Valter Freitas Tavares, 58, agricultor da Chapada do Apodi, em Limoeiro do Norte. Retratado na série de reportagens “Viúvas do Veneno”, ele era um dos trabalhadores acompanhados por médicos hematologistas após avaliação de exame da medula óssea. A constatação de alteração nos cromossomos de trabalhadores rurais da aplicação de veneno é um dos maiores estudos realizados no Brasil sobre o impacto dos agrotóxicos.

Segundo a esposa, Maria Vaneide Lima Pereira, 43, em março passado, Valter reclamou de fortes dores na cabeça. Teve início sua saga: “tomou remédio, mas a dor não passava com comprimido. Ele dizia que era muito forte”. O agricultor foi encaminhado ao Hospital Regional de Limoeiro do Norte, onde foi aplicada uma injeção, mas a dor continuava. Vaneide levou-o para fazer tomografia numa clínica particular. Retornou ao hospital público e a equipe médica resolveu encaminhá-lo a Fortaleza.

 

Desde o dia 17 de março Valter Tavares estava internado no HGF. Lá descobriram que teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) hemorrágico. Foi direto para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde passou quatro dias. “Fizeram uma cirurgia. Parecia que ia melhorar. Saiu da UTI e voltou para a enfermaria”. Dois dias depois, o agricultor passou mal e foi novamente encaminhado para a unidade intensiva. Foi dada sua morte às duas da madrugada de ontem.

Valter Tavares passou a ser acompanhado por médicos após participar, voluntariamente, de um exame de coleta de medula óssea em trabalhadores rurais da Chapada do Apodi que atuavam em grandes empresas agrícolas da região.

A morte de trabalhadores e o alto índice de câncer em Limoeiro do Norte (30% a mais que em regiões não-agrícolas) chamou a atenção dos médicos hematologistas Ronald Pinheiro e Luiz Ivando. Eles coordenaram estudo genético comprovando alterações cromossômicas em trabalhadores da Chapada do Apodi, em Limoeiro.

Foram coletadas 43 amostras de medula óssea entre trabalhadores da cultura da banana para exportação e da agricultura familiar. Do total, 11 apresentaram alterações cromossômicas. “Elas são muito frequentes em doenças hematológicas, como leucemia mielóide aguda e síndromes mielodisplásicas. Precisamos ficar vigilantes com esses trabalhadores. Eles devem ser afastados do veneno. O câncer precisa de várias etapas para o aparecimento e, nestes casos, a primeira etapa apareceu”, afirmou Luiz Ivando na época da reportagem “Viúvas do Veneno”. Ele é médico hematologista do Hospital Universitário Walter Cantídio, em Fortaleza.

“Após os resultados, passamos a acompanhar alguns trabalhadores e o Valter era um deles. A última consulta foi há seis meses, foi a última vez que o vi. Ele parecia muito bem e sua próxima consulta seria amanhã”, afirma Luiz Ivando, que explica não ser possível relacionar aos resultados de sua pesquisa com a morte do trabalhador. “Eu não acho que tenha relação com o que constatamos na medula”, afirma, sem descartar que, de outra forma, os agrotóxicos tenham impactado em sua saúde.

Aplicação de veneno

Valter trabalhou por cinco anos em uma empresa agrícola na Chapada do Apodi, entre os municípios de Limoeiro do Norte e Quixeré. A maior parte do tempo atuou no setor de aplicação de venenos em lavouras de abacaxi e banana.

Morador da comunidade de Antônio Holanda, mais conhecido como Cidade Alta, em Limoeiro do Norte, Valter resolveu participar da pesquisa realizada pelos médicos hematologistas, na qual se deu a constatação dos efeitos do veneno.

O Ministério Público do Trabalho solicitou à empresa que transferisse o trabalhador para um outro setor em que não houvesse contato. Após determinação da Justiça do Trabalho, foi transferido para o setor de empacotamento. Há seis meses foi demitido. Valter deixa quatro filhos.



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