
Por Iris Pacheco
Da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida
Enquanto pesquisadores identificam 25 tipos de agrotóxicos ao longo de toda a extensão do Rio Tietê, o governo federal publica no Diário Oficial da União mais um pacote de registros de pesticidas: são 92 novos produtos autorizados pelo Ato nº 39, de 29 de junho de 2026. A coincidência entre os dois acontecimentos reacende uma discussão que vai muito além dos números: o Brasil está conseguindo conciliar a expansão da produção agrícola com a proteção da saúde da população e do meio ambiente?
O estudo da SOS Mata Atlântica mostra que resíduos de agrotóxicos foram encontrados em diferentes pontos do principal rio paulista, reforçando um cenário de contaminação ambiental que preocupa pesquisadores. No mesmo período, novos registros ampliam o portfólio de produtos disponíveis no mercado brasileiro. Embora a concessão de registros não signifique, necessariamente, a introdução de novos ingredientes ativos, pois muitos são produtos genéricos ou equivalentes, o volume de autorizações evidencia a continuidade de um modelo que mantém o país entre os maiores consumidores de agrotóxicos do mundo.
A questão central é que o debate, portanto, não deve se limitar somente ao número de registros publicados, mas também à capacidade do Estado de monitorar os impactos desse uso sobre os recursos hídricos, a biodiversidade e a saúde humana. Afinal, o sistema de fiscalização consegue acompanhar a velocidade com que novos produtos chegam ao mercado? Os programas de monitoramento analisam todas as substâncias utilizadas nas lavouras? E os efeitos da exposição simultânea a diferentes moléculas, o chamado “efeito coquetel”, já são suficientemente conhecidos pela ciência?
Tem veneno no seu copo
Na última semana, o Ministério da Saúde, por meio do Vigiágua (Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano), abriu uma consulta pública para levantamento de sugestões, propostas e questionamentos sobre a Norma de Qualidade da Água para Consumo Humano vigente. Com isso, as regras para o nível de agrotóxicos permitidos na água potável poderá ser revisada e até alterada, para garantir mais qualidade e segurança para a população brasileira. Mas, acontece que o país já possui um limite de resíduos toleráveis na água até 5.000 vezes maiores do que os limites europeus de onde, muitos destes agrotóxicos são importados.
Atualmente, a presença de múltiplos resíduos de agrotóxicos nos rios brasileiros levanta preocupações que vão além da fauna e da flora. Diversos estudos científicos investigam possíveis associações entre a exposição crônica a determinados pesticidas e alterações hormonais, problemas neurológicos, distúrbios reprodutivos e alguns tipos de câncer. Embora os riscos dependem da substância, da dose e do tempo de exposição, especialistas defendem que a avaliação da segurança precisa considerar não apenas cada produto isoladamente, mas também os efeitos cumulativos das misturas encontradas no ambiente.
O desafio para o Brasil não é apenas produzir mais alimentos e commodities. É garantir que esse crescimento ocorra sem comprometer a qualidade da água, dos ecossistemas e da saúde das atuais e futuras gerações. Enquanto os registros de agrotóxicos continuam avançando e estudos ambientais revelam resíduos dessas substâncias em rios importantes, permanece uma pergunta que exige respostas baseadas em evidências, transparência e políticas públicas eficazes: estamos fortalecendo, na mesma proporção, os mecanismos de controle, fiscalização e monitoramento capazes de evitar que o custo da produtividade seja pago pela sociedade e pelo meio ambiente?
