Agrotóxico está fazendo as abelhas migrarem para a cidade, relata apicultor em Goiás

Por Daniel Giovanaz
Do Brasil de Fato

A pulverização aérea de agrotóxicos em Bela Vista de Goiás (GO), região metropolitana de Goiânia (GO), está provocando a migração de milhares de abelhas do campo para a cidade. É o que relata o apicultor Adolfo Estulano Garcia, que registrou o fenômeno em vídeo [confira abaixo].

“Os pequenos produtores de Bela Vista abastecem Goiânia com verduras, frutas, laticínios, peixes e mel. Com essa pulverização aérea, as pessoas da cidade vão comer alimentos envenenados, produzidos em águas envenenadas, porque isso escorre pela terra, e agora tem o problema das abelhas”, relata.

“As abelhas estão saindo do campo porque são muito perceptivas, sensíveis, e migram quando percebem que o ambiente não está bom. Além disso, como estão derrubando o Cerrado, as matas, elas não encontram flores. Tem a flor da laranja, da soja, mas os agricultores jogam veneno, e só de passar perto elas já adoecem”, completa.

::Venenos agrícolas matam meio bilhão de abelhas em três meses::

A cidade virou notícia nacional na semana passada, quando 47 trabalhadores rurais deram entrada em um hospital ao mesmo tempo com sintomas de intoxicação por agrotóxicos. O veneno que os atingiu veio de um avião pulverizador da fazenda vizinha.

Em janeiro, Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Goiás denunciou ao Ministério Público a contaminação das nascentes, de abelhas e dos moradores da região. Em Bela Vista, mais de 1,8 milhão de abelhas cultivadas nas comunidades de Furado, Barro Amarelo e São Bento foram exterminadas, segundo estimativa dos apicultores.

Na época, por volta do dia 12 de janeiro, Garcia foi denunciar o ocorrido à delegacia de Polícia Civil do município e fez um vídeo para mostrar a “invasão” das abelhas no ambiente urbano. Ainda não houve resposta àquela denúncia.

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“Estacionei a caminhonete em frente à delegacia de Bela Vista, e não tinha uma abelha. As caixas estavam abertas, na carroceria. Conversei com um morador, que estava falando justamente sobre a migração das abelhas para a cidade. E, de repente, meia hora depois, vi que já tinha uma quantidade enorme de abelhas nas caixas”, explica.

“Elas estavam na cidade, procurando comida”.

Outro vídeo, gravado na zona rural e disponibilizado por Garcia, mostra que as abelhas que sobrevivem ao agrotóxico estão abandonando até as colmeias onde já começaram a produzir mel.

O veneno que teria sido utilizado em janeiro, chamado Perito, é proibido para uso aéreo. As comunidades também se dedicam à produção de hortaliças, frutas, carnes, polvilho e laticínios orgânicos.

Conforme relatado por fontes locais ao Brasil de Fato, predomina no município a agricultura familiar. Os aviões pulverizadores se tornaram parte da paisagem há pouco mais de cinco anos, coincidindo com o avanço do agrotóxico e das fazendas de soja.

Garcia relata que apicultores têm cada vez mais sido acionados pelo Corpo de Bombeiros para auxiliar em caso de enxames na cidade.

“Quando as abelhas invadem as casas, os prédios, eles ligam para a gente ir lá retirar e levar novamente para o campo”, conta. “Segunda-feira (10), fomos no Parque Industrial João Braz [em Goiânia]. Há um mês, estou para ir retirar abelhar que apareceram perto do Serra Dourada [também na capital do estado].”

Brasil de Fato entrou em contato com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SEMA), que informou que foi realizada vistoria sobre o caso da mortandade de abelhas, a partir da denúncia ao Ministério Público.

“Verifiquei que não era atribuição nossa julgar se nesse caso estava correto ou não o uso do agrotóxico. A gente não tem equipamentos nem capacidade técnica para analisar se está havendo contaminação, se está dentro dos parâmetros da legislação. Essa é uma atribuição estadual, e isso tudo foi informado ao Ministério Público”, relatou um fiscal da SEMA.

A Secretária de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável informou que a responsabilidade sobre a apuração desses casos é da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa).

A reportagem aguarda retorno desse órgão e também do Corpo de Bombeiros, neste último caso para quantificar o aumento de enxames de abelhas registrados em Bela Vista e em Goiânia em 2021.

Edição: Vinícius Segalla



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