Autonomia e diversidade na produção de alimentos saudáveis

Por Redação MST Sudeste
Da Página do MST

“Camponês que não guarda semente não têm autonomia do seu plantio. Então passamos a armazenar 10% da produção em um banco de sementes comunitário com o objetivo de reproduzir. Essas sementes nós temos como patrimônio da humanidade.” O argumento do assentado da Reforma Agrária Silvano Leite resume bem a importância das sementes crioulas para a agricultura camponesa e a biodiversidade. 

O feijão agroecológico Karucango é resultado desse entendimento que teve início há três anos no Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Osvaldo de Oliveira, em Macaé (RJ), Regional Lagos do MST. Mesmo com a pandemia, mais de 60 toneladas do feijão foram produzidos este ano no PDS. 

Além de resgatar saberes tradicionais e práticas agroecológicas, a partilha das sementes crioulas é outro fundamento que garante a preservação dos grãos. A semente do feijão agroecológico do PDS, por exemplo, é reproduzida no acampamento Edson Nogueira e no assentamento Irmã Dorothy, ambos no estado.

“Todo camponês, Sem Terra ou não, que necessita da semente do feijão, nós garantimos uma quantidade. Pra que ela não se esgote, temos uma política de distribuição. Se plantamos 100kg de feijão do nosso estoque coletivo, retornamos ao final da colheita com 150kg. E assim a gente vem garantindo uma semente de qualidade e sempre disponível”, afirma Silvano Leite, coordenador regional do MST no Rio de Janeiro.

Ao contrário do agronegócio, as sementes crioulas são naturais e livres de modificações genéticas e produtos químicos que fazem mal tanto ao consumidor desses alimentos quanto ao meio ambiente. 

Chamadas de patrimônio da humanidade, o cultivo das sementes crioulas nos assentamentos e acampamentos do MST é fundamental para garantir a produção e a diversidade de alimentos saudáveis que chegam à mesa de brasileiros e brasileiras em todo país, seja nas ações de solidariedade ou comercializadas em feiras locais e cestas da Reforma Agrária. 

Saberes compartilhados
Ao contrário do agronegócio, as sementes crioulas são livres de modificações genéticas e produtos químicos. Foto: Giorgia Prates

Do Setor de Produção do MST no Espírito Santo, Daniel Mancio destaca a experiência emblemática do assentamento 17 de Abril. Há mais de 15 anos, o assentamento localizado no município de Muqui é referência na produção do milho Fortaleza e Aliança. A experiência cooperada mobiliza nove famílias Sem Terra no Sul do estado, integrantes da brigada José Marcos de Araújo. Diversas comunidades tem a semente como principal variedade de milho para consumo, e o assentamento Zumbi do Palmares, em São Mateus (ES), reproduz o grão.

A lógica da produção de sementes, explica Daniel Mancio, também é uma estratégia política do Movimento Sem Terra para construção da soberania alimentar, contra o monopólio de sementes das grandes empresas. 

“A semente está diretamente ligada a soberania alimentar por ser esse insumo básico da produção de alimentos saudáveis, que gera para a família camponesa autonomia, resistência e capacidade de decidir o que plantar, como plantar, a partir de qual matriz tecnológica. Não tem como falar de soberania alimentar sem falar do controle das sementes”, defende.

O mineiro Jorge Rodrigues Pereira, militante do MST há 20 anos no assentamento Terra Prometida, relata que a contaminação dos cultivos motivou a implementação de casas e campos de sementes no Vale do Jequitinhonha. Antes, sem a “guarda das sementes” e com períodos de seca prolongados, os agricultores buscavam o insumo já contaminado do mercado. 

“A interferência dos transgênicos às vezes nem é por culpa das pessoas, mas vem pelo vento ou agentes polinizadores. Por isso fazemos o teste pra saber se temos uma semente segura ou não. Nós trabalhamos a questão de não queimada, nenhum produto químico nem agrotóxicos de pulverização. É importante essa conscientização nas pessoas”, ressalta Jorge.

O trabalho de resgate, captura testagem de sementes crioulas é realizado com a Cáritas Diocesana de Almenara e a Cáritas Regional Minas. Nas diversas casas de sementes espalhadas pelo Vale, há troca de experiência entre as comunidades. Os cuidados vão desde o distanciamento, época de plantio e variedade das sementes.

*Editado por Fernanda Alcântara



'Autonomia e diversidade na produção de alimentos saudáveis' não possui comentários

Seja o primeiro a comentar este artigo!

Quer compartilhar suas ideias?

Seu endereço de email não será publicado.

Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida