Especialistas e movimentos sociais criticam o “Pacote do Veneno” e defendem a agroecologia como via de resistência

Por Iris Pacheco
Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida
O avanço do uso de agrotóxicos no Brasil, seus impactos na saúde, no meio ambiente e nos territórios tradicionais foram temas centrais do debate “Brasil Envenenado: denúncias, resistências e luta contra os agrotóxicos”, realizado nesta quarta-feira, 27, durante o 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (SIBSA), na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
A atividade coordenada por Jakeline Pivato, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, reuniu pesquisadores, militantes e representantes de movimentos sociais para discutir os impactos do modelo agroexportador baseado em monoculturas, transgênicos e uso intensivo de venenos agrícolas.
O pesquisador Wanderlei Pignati, do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador (NEAST/UFMT), alertou para o volume alarmante de agrotóxicos utilizados no país e destacou Mato Grosso como um dos epicentros da contaminação devido à produção de algodão.
“São cerca de 1 bilhão de litros de agrotóxicos por ano. De norte a sul, não sobra nenhum estado desse país sem ser impactado”, afirmou. Segundo ele, Mato Grosso produz cerca de 60% do algodão brasileiro, cultura que lidera o consumo de agrotóxicos por hectare no país.

Pignati também questionou os impactos invisibilizados desse modelo de produção, desde o destino das embalagens dos produtos até o financiamento público destinado ao agronegócio. “A gente está financiando para poder envenenar o Brasil”, criticou Pignati.
Outro ponto destacado foi a relação entre transgênicos e aumento do uso de agrotóxicos. “A soja transgênica é resistente ao glifosato, e isso amplia ainda mais a aplicação desses produtos nas lavouras”, explicou. Para o pesquisador, o atual modelo agrícola intensifica tanto as intoxicações agudas quanto os efeitos crônicos na população.
A pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Karen Friedrich, denunciou os retrocessos legislativos relacionados à aprovação do chamado “Pacote do Veneno”, sancionado em 2023. Segundo ela, houve um crescimento expressivo na liberação comercial de agrotóxicos, especialmente a partir de 2019.
“O parlamento vem se mostrando contra a natureza, a saúde e os povos tradicionais ao aprovar leis que infringem direitos em diversas ordens”, afirmou.
Friedrich também criticou a ideia de neutralidade científica diante dos impactos causados pelos agrotóxicos. “A ciência não é neutra. Somos servidores públicos e não podemos ser neutras vendo pessoas, territórios e biodiversidade sendo afetados”, declarou a pesquisadora, alertando ainda para os riscos da nova legislação, que permite o registro de substâncias cancerígenas a partir da definição de um “risco aceitável” de adoecimento. A pesquisadora destacou duas ações civis públicas movidas pelo Ministério Público do Trabalho em 2025 contra os herbicidas atrazina e glifosato.

Na esteira desse debate, os movimentos sociais se configuram como centrais para o enfrentamento ao agronegócio e também na construção de saídas possíveis a partir de práticas agroecológicas nos territórios. Nesse sentido, Camilo Santana, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Rondônia, trouxe relatos dos impactos diretos da pulverização de agrotóxicos em assentamentos rurais. “No assentamento onde eu moro temos um problema grave com a deriva dos agrotóxicos”, contou.
Para militante sem terra, o problema vai além de questões técnicas ou de governos específicos. “É uma luta anticapitalista vinculada ao capital financeiro global. Não existe interesse em substituir os agrotóxicos porque eles geram lucro”, afirmou.
Santana também relacionou o enfrentamento aos agrotóxicos à estrutura fundiária brasileira. “Não tem como combater os agrotóxicos sem combater a estrutura agrária do Brasil. O agronegócio brasileiro se sustenta pelo latifúndio”, disse.
Ao longo do debate, participantes reforçaram a necessidade de ampliar a vigilância popular, fortalecer políticas públicas de saúde e agroecologia e construir formas de resistência coletiva frente ao avanço do agronegócio e da flexibilização ambiental no país.
