
Há 15 anos, vimos nascer das mãos de organizações sociais, movimentos populares e ativistas em defesa da vida, um novo instrumento de luta contra o modelo dominante de produção agrícola no Brasil. O agronegócio, que envenena nosso povo, é o grande responsável por fazer do nosso país o maior consumidor de agrotóxicos do mundo.
O que ocorreu em 7 de abril de 2011, no Dia Mundial da Saúde, não foi apenas um protesto, mas uma grande articulação de resistência que completa agora uma década e meia de vigília incansável: a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.
Desde então, a luta tem sido uma batalha desigual contra o modelo do agronegócio, transformando a dor da contaminação em força política e científica para defender o que é sagrado, como a água, a terra e o alimento que chega à mesa de cada família.
Celebrar esses 15 anos é honrar a memória de quem tombou na jornada, como Zé Maria do Tomé, e exaltar as vitórias colhidas, como o nascimento do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) e a consolidação da agroecologia como o único caminho possível para o futuro. Entre documentários que revelam verdades amargas e dossiês que deram voz à ciência, a Campanha segue firme, provando que onde o capital tenta semear a morte, o povo organizado insiste em cultivar a vida.
Na cultura de alguns países de África, o sankofa é o símbolo da sabedoria de aprender com o passado para construir um futuro melhor. Por isso, esse é momento de recorrer a nossa memória histórica, relembrar nossos feitos, e projetar a resistência para seguir construindo a luta em defesa da vida.
Mobilização e a batalha das ideias
Uma das marcas da trajetória da Campanha é a produção de materiais de agitação e formação para dialogar com a sociedade. A parceria com o grande diretor Silvio Tendler, que nos deixou no ano passado, resultou no lançamento de dois filmes que se tornaram ferramentas de formação em todo o país. Os documentários O Veneno Está na Mesa I e II ajudaram a levar o tema para dentro de escolas e comunidades rurais por todo o país. Nas palavras de Sílvio, “o lançamento superou as expectativas de muito filme dito de mercado. É incalculável o número de pessoas que assistiram esse filme, só no Youtube foram mais de 300 mil, fora as cópias que foram doadas, vendidas, emprestadas, copiadas, pirateadas; ele teve muito público.”
Além do cinema, a rede contou com o apoio de entidades científicas como a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) para publicar um dossiê sobre os danos dos agrotóxicos. Esse documento apresentou provas sobre como os venenos causam doenças como o câncer e a infertilidade. Também mantemos uma sólida parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no âmbito da formação, que sempre contribuiu para lastrear nossa atuação junto à sociedade científica e à população em geral.
Incidência política e conquistas
Ao longo desses anos, a campanha participou de batalhas importantes no Congresso Nacional e nos estados para incidir sobre legislações que afrontam o direito constitucional à saúde e ao meio ambiente equilibrado. No Ceará, a mobilização ajudou a aprovar a Lei Zé Maria do Tomé, que proibiu a pulverização aérea de agrotóxicos em 2019.
Mais recentemente, o movimento atuou de forma intensa para barrar retrocessos no chamado Pacote do Veneno (Lei nº 14.785/2023), aprovado pelo Congresso Nacional em 28 de novembro de 2023 e sancionado em dezembro de 2023 pelo presidente Lula com 14 vetos, resultado de uma ampla mobilização nacional. Os vetos foram derrubados pela bancada ruralista.
Outro passo importante da atuação da Campanha contra os Agrotóxicos ocorreu no dia 30 de junho de 2025, com a assinatura do decreto do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara). Sabemos que há forças contrárias à redução do uso de venenos na agricultura brasileira e que atuam para o esvaziamento do Pronara dentro do próprio governo.
Embora sejamos críticos a esse cenário, seguimos acreditando que esse é um importante instrumento de que dispõe o povo brasileiro e que deve ser implementado integralmente, com a urgência que o tema merece.

Novos desafios e o futuro
Atualmente, a campanha segue atenta ao surgimento de novas tecnologias que podem aumentar a contaminação ambiental. O uso de drones para a aplicação de venenos é uma das preocupações recentes dos pesquisadores e militantes engajados nesta luta.
Em 31 de março deste ano, celebramos junto ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) o lançamento de um canal oficial de apoio a denúncias de violações causadas por agrotóxicos. A ferramenta busca ajudar a população a cobrar providências dos órgãos responsáveis de forma mais ágil.
Sabemos que temos muitos desafios por diante, e não titubeamos ao afirmar que para pensar o futuro, é preciso, sobretudo, enfrentar o modelo do agronegócio que envenena o nosso país e lucra com o adoecimento do nosso povo.
Em contraposição ao “agroveneno”, assumimos o compromisso de promover, construir e apoiar as iniciativas de agroecologia, de produção de alimentos saudáveis, no cuidado com a natureza, e na edificação de um novo modo de vida.
Linha do tempo
O Despertar e a Articulação (2008–2010)
- 2008: O Brasil assume oficialmente a liderança mundial no ranking de consumo de agrotóxicos, o que gera visibilidade e urgência para o tema.
- Setembro de 2010: Realização de um seminário nacional na Escola Nacional Florestan Fernandes (SP), com a participação de cerca de 30 organizações, onde se define a criação da campanha.
- Dezembro de 2010: Reunião de planejamento define a estrutura organizativa do movimento.
Lançamento e Expansão (2011–2014)
- 7 de abril de 2011: No Dia Mundial da Saúde, a Campanha é lançada oficialmente como uma resposta coletiva à crise do agronegócio.
- Julho de 2011: Lançamento do filme O Veneno Está na Mesa, do diretor Silvio Tendler, tornando-se uma ferramenta central de diálogo com a sociedade.
- Junho de 2012: Ocupação do espaço da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) durante a conferência Rio+20.
- Dezembro de 2012: Lançamento do Dossiê Abrasco, que consolidou as evidências científicas sobre os impactos dos venenos na saúde.
- 2013: Mobilização após a pulverização aérea atingir uma escola em Rio Verde (GO), reforçando a luta pelo fim dessa prática.
- Abril de 2014: Lançamento do filme O Veneno Está na Mesa 2.
- 2014: Elaboração da primeira versão do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que viria a ser vetado pelo Ministério da Agricultura.
Consolidação e Batalhas Legislativas (2015–2019)
- 2015: Lançamento do Dossiê Abrasco sobre Impactos dos Agrotóxicos na Saúde, um marco científico na luta contra os agrotóxicos e na articulação entre academia e movimentos sociais.
- Dezembro de 2015: Consolidação do dia 3 de dezembro como Dia Internacional de Luta Contra os Agrotóxicos, em homenagem às vítimas da tragédia de Bhopal (Índia).
- 2017/2018: Plataforma Chega de Agrotóxicos recebe quase 2 milhões de assinaturas contra o Pacote do Veneno e em defesa da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos
- 2018: Realização do 1º curso nacional de formação de militantes da Campanha Contra os Agrotóxicos, no Rio de Janeiro, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz
- 9 de janeiro de 2019: Aprovação da Lei Zé Maria do Tomé no Ceará, proibindo a pulverização aérea no estado, uma vitória histórica da mobilização popular.
- 2019: A Campanha foca na resistência contra o número recorde de registros de novos venenos no país.
Dez Anos e o Enfrentamento de Retrocessos (2020–2022)
- Abril de 2021: Comemoração de 10 anos da Campanha com o seminário virtual Contra o Agronegócio, por comida, saúde e justiça social, adaptado ao contexto da pandemia.
- 2022: Intensificação das denúncias contra o chamado Pacote do Veneno (PL 6299/2002) e foco na contaminação de águas e alimentos.
Conquistas e Novos Desafios (2023–2026)
- 2023: Aprovação no Senado e sanção presidencial do Pacote do Veneno. Mobilização nacional levou o presidente Lula a vetar alguns dispositivos, porém os vetos foram derrubados pela bancada ruralista.
- 30 de junho de 2025: Assinatura do decreto do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) pelo governo federal.
- 31 de março de 2026: Lançamento do Canal de Apoio a Denúncias de Violações por Agrotóxicos pelo Ministério do Meio Ambiente, uma reivindicação antiga do movimento.
- 1 de abril de 2026: Publicação do parecer técnico alertando sobre os riscos do uso de drones para pulverização no campo, apontando novas fronteiras de risco ambiental.
Você também fez parte desta história? Sentiu falta de algum evento importante na linha do tempo? Escreva nos comentários para completar o nosso baú de memórias!

Sou militante do MST no Triângulo Mineiro. Vamos realizar A JURA nos dias 28 e 29 nos universidades federais de Uberlândia- UFU e Uberaba – UFTM.
Gostaríamos de poder contar com alguém que anima a campanha contar os agrotóxicos. É possível? Precisam de custeio. Se enviar as artes podemos providenciar a impressão.