Dossiê alerta que a expansão da soja provocou estagnação da produção de alimentos


Nos últimos 40 anos, o Brasil aprofundou a lógica colonial concentrando as terras agrícolas em torno do monocultivo de poucas commodities para exportação, com graves consequências sociais e ambientais. Com Infográficos, dados e análises sobre o avanço da monocultura rumo à Amazônia, “Dossiê Crítico da Logística da Soja: Em defesa de alternativas à cadeia monocultural”, produzido pela FASE, detalha o risco de desabastecimento de produtos básicos como o arroz e o feijão e os diversos conflitos de terra que estão surgindo por consequência dos avanços da cultura de soja rumo às terras e portos do Norte.

“O estrangulamento da agricultura familiar tem provocado a fragilização dos sistemas tradicionais de cultivo desses alimentos. No caso do arroz, por exemplo, nesses 40 anos, um único estado (Rio Grande do Sul) passou de 34% para 70% da produção nacional, com graves consequências para o abastecimento”, analisa Silvio Porto, coautor e professor da Universidade do Recôncavo da Bahia. Além disso, a estratégia de formação de estoques públicos foi abandonada. “O estoque atual de arroz não atende sequer ao consumo nacional de dois dias, enquanto as exportações só crescem”, completa.

A soja, carro-chefe do agronegócio “moderno”, representou, junto com o milho, mais de 90% de toda a safra de grãos colhida no Brasil em 2020. Em 43 anos, a produção brasileira da oleaginosa foi ampliada em 10 vezes, saltando de 12 milhões de toneladas (na safra 1976/77) para 124,8 milhões de toneladas (na safra 2019/20). A logística da soja tem estado no centro da agenda “pública” do país, em detrimento de alternativas de infraestrutura com potencial de dinamizar outras economias e formas de viver e produzir.

Devastação, conflitos e resistência

O terceiro capítulo do dossiê analisa a “guerra das rotas”, como os interesses do agronegócio incidem sobre os programas públicos de infraestrutura em um contexto de disputas entre diferentes projetos para o escoamento da soja. Em comum, o desenho de rotas que permitam conectar as fronteiras agrícolas ao novo destino prioritário: a China.

Em 2020, dos 12 principais complexos portuários em termos de volume de soja exportada no país, seis estavam na Amazônia: Barcarena (PA), Itaqui (MA), Santarém (PA), Itacoatiara (AM), Porto Velho (RO) e Itaituba (PA). Mais um complexo portuário do Arco Norte (fora da Amazônia Legal) figurava entre os doze principais: Cotegipe em Salvador (BA). Há diversos projetos de concessão previstos até 2022, em especial das ferrovias de Integração Oeste-Leste (FIOL) TO-BA, em obras, e a Ferrogrão (MT- PA). Além do Ministério de Infraestrutura, os governos estaduais se mobilizam ativamente pela atração de investimentos em seus estados, em especial Maranhão, Pará, Bahia e Mato Grosso. “Além das evidentes consequências econômicas e ambientais, a apropriação privada da terra, a concentração fundiária e a violência no campo são a face mais perversa desse processo”, conclui Diana Aguiar, pesquisadora e organizadora da publicação.

Para Diana, a continuidade desses projetos ao longo de inúmeros governos representa a vigência de um consenso: ênfase nas infraestruturas para a viabilização da extração e escoamento de commodities. “Para cada um desses projetos, há processos de mobilização e resistência em curso. Esses projetos são desenhados a partir de lógicas totalmente alheias aos territórios por onde cruzam, gerando legítimos questionamentos de povos e comunidades tradicionais sobre o que é o ‘desenvolvimento’ que prometem e, acima de tudo, para quem é esse desenvolvimento”.



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