Em mapa, a degradação da agricultura brasileira

Por Willian Menezes
Do Joio e o Trigo

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De 1974 a 2020, o Brasil aumentou sua produção de soja em mais de 1.400%, chegando a 121,8 milhões de toneladas, números que colocam o Brasil como o maior produtor e exportador mundial do grão, usado principalmente como ingrediente para a produção de ração animal. Mais de 70% dessa produção é destinada para a exportação, que é controlada por grandes corporações globais.

Em 2020, no Brasil, a soja ocupava uma área de 37,1 milhões de hectares, algo superior a extensão territorial da Alemanha ou a soma das áreas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Isso significa que, sozinha, a oleaginosa ocupava cerca de 45% da área colhida com todas as culturas do Brasil pesquisadas pelo IBGE/PAM.

Priorizar a soja significa ampliar as desigualdades brasileiras, além de criar outras. Dados do IBGE para um período de 46 anos (de 1974 a 2020) – ver gráfico 1 – demonstram que a área colhida com a soja cresceu 623%; já a de arroz diminuiu 64%, perdendo quase três milhões de hectares, e a de feijão reduziu 37%, 1,6 milhões de hectares a menos que em 1974. No mesmo período, a população brasileira mais que dobrou.

Esse caminho percorrido pelo país não é fruto do acaso, mas algo intencional e com a participação direta do Estado brasileiro. Em 2020, quase a metade (cerca de 49%) de todo o crédito custeio destinado às lavouras brasileiras foi só para a soja. Enquanto que o arroz ficou com 2,9% e o feijão com aproximadamente 1%.

Parte considerável do uso agrícola do território brasileiro acaba por ser controlado por grandes produtores e por tradings, cujo principal objetivo é produzir commodities agrícolas para a exportação. A consequência é a desordem na produção de alimentos no Brasil e, consequentemente, um impacto na alimentação do brasileiro. Ao longo das últimas décadas a quantidade produzida e a área plantada com arroz foram reduzidas na maioria dos estados brasileiros. Hoje, 70% da produção de arroz está concentrada no estado do Rio Grande do Sul (ver publicação desta coluna sobre crise do arroz). Em 2020, em plena pandemia, o arroz teve uma disparada no preço e o Brasil importou o produto para garantir o abastecimento interno.

Gráfico 1 – Brasil: evolução das áreas colhidas com soja, arroz e feijão – de 1974 a 2020

Fonte: IBGE/PAM. Organizado por Willian Menezes

A soja vai avançando em áreas de outras atividades agrícolas e sobre a vegetação nativa, sobretudo no Cerrado. Dados do relatório da WWF apontam que o Cerrado perdeu 50% de sua cobertura vegetal original, de 1970 a 2018.

Nos municípios que registram os maiores PIBs agrícolas do Brasil, a riqueza gerada pelas commodities, especialmente a soja, não chega necessariamente para a maioria da população. Pesquisas realizadas em municípios brasileiros com elevada produção da oleaginosa (ver em Menezes, 2021) revelam que nesses locais há uma ampliação das desigualdades socioespaciais, já que os valores gerados pelas commodities ficam concentrados com poucos e são destinados para fora da região, frequentemente para outro país. Um dos exemplos desse processo são os municípios baianos que se destacam no cenário nacional com a produção de soja, mas que também apresentam elevado número de famílias consideradas pobres ou extremamente pobres, segundo dados do Programa Bolsa Família. Na mesma direção é o que aponta dados do último Censo Demográfico, já que municípios com supersafras de soja, como Formosa do Rio Preto e Riachão das Neves, também se destacam com uma elevada porcentagem de domicílios sem rendimento mensal.

Na Bahia, em 2020, apenas 1.397 contratos custeio de sojicultores ficaram com R$ 1,6 bilhão, já o feijão restringiu a R$ 27 milhões, a mandioca R$ 840 mil e o arroz não recebeu recursos para essa modalidade de crédito. No mesmo ano, ainda na Bahia, mais 221 mil contratos do Pronaf, que atende pequenos agricultores, somaram 1,2 bilhão de reais, valor inferior ao destinado à lavoura da soja.

Nove municípios baianos (São Desidério, Formosa do Rio Preto, Barreiras, Correntina, Luís Eduardo Magalhães, Riachão das Neves, Jaborandi, Cocos e Baianópolis) concentram praticamente toda a produção de soja do estado. Nesses municípios, de 2011 para 2018, a produção do grão cresceu 79% e sua área plantada aumentou em 53%. Todavia, para o mesmo período, o número de empregos na agropecuária, nesses mesmos municípios, permaneceu o mesmo. É uma lavoura bastante mecanizada.

Plantação de soja no município de Formosa do Rio Preto – BA, em 16 de janeiro de 2020. Foto: Willian Menezes

A priorização do Brasil pela produção de commodities agrícolas, sobretudo a soja, em detrimento de uma agricultura diversificada e que atenda pequenos produtores, tem graves consequências para a sua população. Nos últimos anos, especialmente no governo Bolsonaro, as políticas públicas destinadas aos pequenos agricultores e ao abastecimento interno de alimentos passaram por seguidos ataques. Basta citar a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), além da decisão do governo federal de fechar ou vender unidades armazenadoras da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

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Referências:

BBC. Desmatamento: Amazônia perdeu 20% e Cerrado, 50%, desde 1970, aponta relatório da WWF. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46026334. Acessado em 05/10/2021.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Produção agrícola municipal. Disponível em https://sidra.ibge.gov.br/tabela/1612. Acessado em 05/10/2021.

MENEZES, Willian G. M. D. SELETIVIDADE E DESIGUALDADES SOCIOESPACIAIS: o uso do território do território brasileiro pela soja. 2021. 440 f. Tese (Doutorado em Geografia) – Programa de Pós-Graduação em Geografia pela Universidade Federal da Bahia, Salvador. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/34015


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