Entenda por que a América Latina é chave para planos de economia verde

Por Michele de Mello
Do Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

Cúpula do Clima da ONU (COP26) debate diferentes propostas sobre como conter a emergência climática global, as grandes potências econômica ocidentais tentam avançar com o Green New Deal, por parte dos Estados Unidos, e o Pacto Verde da União Europeia, enquanto os povos das regiões mais afetadas pelo aquecimento do planeta denunciam a urgência de parar com a destruição ambiental.

A América Latina e África são responsáveis por menos de 10% das emissões de gases poluentes e no entanto,  sãs as regiões mais afetados pelas mudanças climáticas, tanto no aspecto ambiental, como sociopolítico. 

Segundo a Agência de Refugiados da ONU (Acnur), cerca de 30,7 milhões de pessoas foram desolacadas dos seus lares por enchetes, queimadas, desmatamento ou outros efeitos da mudança do clima – e a maioria de refugiados climáticos vem da África e do Caribe. 

Desde 1990, houve um aumento de 45% da retenção de calor na atmosfera pela concentração de gases poluentes, como o dióxido de carbono (CO2), segundo relatório das Nações Unidas. Embora a ONU tenha estabelecido a meta de zerar emissões de carbono até 2030, a estimativa para o final de 2021 é reduzir entre 4% e 7,5% as emissões diárias em todo o globo.

No último século, houve um aumento de 1,5ºC na temperatura global, o que provoca alterações nas correntes de ar, marítimas e no desenvolvimento da vida animal e humana como um todo. 

A situação imprime urgência aos Estados de implementar novas políticas ambientais e a América Latina é chave para desenvolver as duas propostas das potências ocidentais.

Green New Deal e Pacto Verde

O novo acordo verde ou Green New Deal dos Estados Unidos sugere a substituição do uso de combustíveis fósseis por outras formas de energia. A automatização da indústria e o uso de carros elétricos são dois exemplos de ações que os EUA buscam promover. 

:: COP26 | o destino do planeta ::

Pacto Verde europeu também propõe diminuir a dependência do petróleo, gás e carvão por energias limpas. Além de aumentar o reflorestamento, com base nos mecanismos do mercado de carbono, investir na “economia azul” para aumentar a rentabilidade a partir dos mares e oceanos, assim como diminuir o uso de agrotóxicos a base de nitrato e fosfato.

O bloco europeu prevê que seriam necessários 25 bilhões de euros (cerca de R$ 150 bilhões) para transitar à neutralidade climática. Já os Estados Unidos indicam que seriam necessários US$ 18 trilhões (aproximadamente R$ 99 trilhões) para zerar as emissões de CO2 até 2050 e implementar o novo acordo verde.

Parte dos recursos econômicos para criar a nova infraestrutura viriam de um imposto global às transnacionais – tema em debate no G20. 

Para isso, necessitam controlar as fontes de recursos naturais que são matéria-prima das tecnologias que a economia verde exige. Bolívia (21 milhões de toneladas de lítio), Argentina (17 milhões de toneladas) e Chile (9 milhões de toneladas) concentram cerca de 60% das reservas de lítio – mineral fundamental para baterias de equipamentos eletrônicos – existentes no mundo.

Chile e Peru possuem cerca de 60% das reservas de cobre. Enquanto o Brasil é o maior produtor de minério de ferro do mundo, com a quinta maior reserva.

A professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Monica Bruckmann avalia que o “consumo intensivo e crescente” de minerais da transição energética, como lítio e cobre, pode ter como consequência um aumento do extrativismo e de efeitos nefastos como êxodo rural, expulsão territorial e aumento de conflitos socioambientais.

“Esse processo precisa ser visto de maneira sistêmica e planetária. Não é possível ter como agenda a descarbonização da economia mundial na ponta, nos países desenvolvidos, e uma ampliação da devastação ambiental na base, que são os países subdesenvolvidos e emergentes”, avalia Bruckmann em entrevista ao Brasil de Fato.

A pesquisadora ainda destaca que não se trata de se opor às mudanças necessárias para enfrentar a emergência climática, mas ter no horizonte um desenvolvimento soberano da região e que não passe pela subordinação aos países desenvolvidos.

A América Latina ainda concentra cerca de 40% das fontes de água doce do planeta. 

“Falta investimento nos setores verdes na nossa região. São poucas empresas e setores com investimentos. Durante a pandemia os governos reduziram o orçamento para a questão ambiental. Para nós é preocupante”, afirmou a secretária executiva da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), Alícia Bárcena.

Apenas 18% dos fundos de recuperação econômica pós-pandemia são direcionados à projetos com base na economia verde, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

No entanto, a própria Bárcena alerta para o risco de reprimarização da economia latino-americana com a imposição das demandas da economia verde das grandes potências.

Edição: Thales Schmidt


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