Envenenamento por agrotóxico: 59% dos casos gaúchos acontecem em casa

Estudo aponta que 40% das intoxicações domésticas são acidentais – por de armazenamento e manejo inadequados e falta de equipamentos de proteção

Por Projeto Colabora

Pesquisadoras da Escola de Saúde Pública e do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, em Porto Alegre, ao analisar 3.122 casos suspeitos de intoxicação  por agrotóxicos notificados no Rio Grande do Sul entre 2011 e 2018, mostram que o cenário mais comum de contaminação acontece de forma acidental, em 40% dos casos, e na própria residência do trabalhador, em 59% dos casos. Seis em cada dez casos notificados estão relacionados à produção agrícola do estado. O estudo foi publicado em 7 de dezembro na revista “Epidemiologia e Serviços de Saúde”.

Na maioria dos casos, as notificações foram de homens (63,7%), brancos (86,9%) com baixo nível de escolaridade. Apenas 4,3% haviam cursado ou completado o ensino superior. Embora a faixa etária mais atingida tenha sido de 20 a 29 anos (20,3%), a maioria (60,6%) das intoxicações suspeitas foi notificada a partir dos 30 anos. Em 82% dos casos, a intoxicação foi do tipo aguda, quando há apenas um evento de exposição do indivíduo à substância tóxica em 24 horas. O diagnóstico da intoxicação foi feito por meio de avaliação clínica em 61% dos casos notificados.

O fato de quase seis entre dez notificações terem ocorrido por contato na própria residência, superando o ambiente de trabalho (33,7), não surpreendeu as autoras. “Esse dado levanta as hipóteses da existência de problemas no armazenamento e de descumprimento da distância mínima recomendada entre a lavoura e a casa. Além disso, no ambiente domiciliar se utilizam também inseticidas, raticidas e produtos destinados ao tratamento de piolhos e outros parasitas, aumentando ainda mais o risco de intoxicação”, observa a sanitarista da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul, Amanda Brito de Freitas, que assina a autoria do estudo ao lado da sanitarista Vanda Garibotti.

O Brasil é um dos principais consumidores de agrotóxicos no mundo. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), de 2005 até metade de 2019, foram registrados 2.940 produtos classificados como agrotóxicos. De acordo com o estudo, em 2014, o Rio Grande do Sul era o quinto estado brasileiro com maior volume de comercialização de agrotóxicos e letalidade de intoxicação por esses produtos: 3,77 casos por 100 mil habitantes, superior à taxa média nacional. Reportagem do #Colabora, em 2019, mostrou que herbicida usado na sojicultura estava contaminando vinhedos e outras plantações no Rio Grande do Sul.

A contaminação acidental (40%) foi o principal motivo de intoxicação. Mais do que isso, registrou o dobro da contaminação por uso habitual (20%) e supera também o uso ambiental e tentativa de suicídio. As principais motivações associadas com esses acidentes são o armazenamento em local de fácil acesso, manejo inadequado destas substâncias (incluindo também a reutilização das embalagens) e falta de equipamento de proteção individual (EPI).

As autoras da pesquisa apontam também que “entre os fatores que contribuem para a ocorrência da intoxicação por causas acidentais, estão o fácil acesso de crianças aos locais de depósito dessas substâncias e a reutilização de embalagens de agrotóxicos”.

A tentativa de suicídio representou a segunda maior causa de intoxicação por agrotóxico no Rio Grande do Sul, no período estudado. “Evidências científicas associam a exposição aos inseticidas, especialmente os organofosforados, com sintomas de ansiedade e depressão”, destacam Amanda Freitas e Vanda Garitbotti no estudo.

Apesar de a relação causa-efeito ser mais visível nas intoxicações agudas, que são maioria no Rio Grande do Sul, as pesquisadoras alertam que o diagnóstico ainda é deficiente e se baseia, na maioria das vezes, nas condições dos sinais e sintomas clínicos apresentados. “Há uma enorme limitação para a confirmação do diagnóstico de intoxicação por agrotóxicos mediante exames laboratoriais, os quais ajudariam a prescrever um tratamento mais específico. Não existem biomarcadores disponíveis para as principais substâncias utilizadas na agricultura”, destaca o estudo.

Orientação e vigilância

A orientação técnica e a fiscalização nestes casos são fundamentais para evitar os riscos à segurança e à saúde dos trabalhadores rurais. Na agricultura, explica Amanda Freitas, o objetivo do uso do EPI é evitar os riscos químicos que podem levar às intoxicações de forma aguda e crônica, em decorrência da utilização de agrotóxicos. As atividades de pulverização (42%) e diluição (18%) foram as de maior exposição ao agrotóxico.

“É importante que o empregador proporcione capacitação aos trabalhadores com orientação quanto ao risco à saúde inerente à utilização desses produtos, quanto aos locais adequados de armazenamento e forma correta de manuseio e aplicação, de acordo com os rótulos e as bulas do fabricante; assim como o uso correto da vestimenta adequada incluindo: calças e camisas compridas, que cubram toda a pele, botas, luvas, avental, óculos de segurança ou viseira de proteção, chapéu ou capuz com máscara. Além disso, é importante orientar também sobre as recomendações quanto à manutenção, lavagem, descarte e armazenamento destes EPIs”, detalha.

As autoras vislumbram que o estudo seja utilizado como subsídio para o planejamento das ações da vigilância em saúde e políticas púbicas para a proteção da saúde da população. Ela também concluem que é necessário avançar na identificação dos casos de intoxicação por meio do desenvolvimento de novos métodos diagnósticos a partir de biomarcadores e melhor qualidade da coleta de dados.



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