Os agrotóxicos que cruzam as fronteiras

Indígenas e agricultoras de Mato Grosso temem os efeitos do uso intensivo de pesticidas no estado que estariam chegando a outros países

 

Do Projeto Colabora com fotos de Téo Miranda 

 

“Estamos muito preocupadas. Já sentimos coceira na pele, cheiro e gosto nos alimentos ou na água”, explica Domingas Rikbatksa, do povo indígena Rikbatsa, que vive nas margens do rio Juruena, no norte de Mato Grosso. Domingas é uma das 180 mulheres da região que desembarcaram na terça-feira (13) em Brasília para manifestar sua indignação com a monocultura e o uso intensivo de agrotóxico no estado. Muitas delas, vindas de aldeias indígenas, sítios e assentamentos, produzem alimentos a partir da agricultura familiar. Agora, se veem ilhadas pela imensidão da monocultura de soja e cana de açúcar que não só avançam em direção às suas propriedades, mas também as deixam expostas à contaminação pelo processo de pulverização aérea dessas produções, cujo veneno se espalha pelo ar, levado pelo vento.

Carregando cartazes e uma boneca gigante, as mulheres de Mato Grosso estão preocupadas com a enxurrada de informações acerca dos agrotóxicos no Brasil, como a liberação de novos pesticidas. Só no último mês de julho, o Governo Federal liberou 51 novos agrotóxicos, sendo que sete contém princípios ativos novos no país. Ao todo, no primeiro semestre foram liberados 262 agrotóxicos no país.

Mesmo antes das recentes autorizações do governo que ampliaram o número de agrotóxicos que podem ser usados nas lavouras, uma pesquisa da bióloga Danielly Cristina de Andrade Palma, realizada em 2010, apontou 100% de contaminação nas 62 amostras de leite materno coletadas em mães residentes na cidade de Lucas do Rio Verde (MT).

Durante audiência pública realizada em abril de 2019, na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, o professor doutor Wanderley Pignati, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso, alertou que, enquanto a média nacional de exposição é de 7,3 litros por habitante, em Mato Grosso, pode chegar a 67 litros. Lembrou ainda, que o Brasil utiliza agrotóxicos proibidos na União Europeia devido ao risco de câncer, má- formação e distúrbios neurológicos. Além desses riscos, o Relatório Nacional de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos alerta que esses componentes químicos podem causar quadros de intoxicação leve, moderada ou grave, alergias; distúrbios gastrintestinais, respiratórios, endócrinos, reprodutivos e neurológicos; neoplasias; mortes acidentais; suicídios; entre outros. Dentre os grupos mais suscetíveis a esses efeitos estão trabalhadores agrícolas, aplicadores de agrotóxicos, crianças, mulheres em idade reprodutiva, grávidas e lactantes, idosos e indivíduos com vulnerabilidade biológica e genética.

A engenheira florestal e mestre em saúde coletiva Francileia Paula de Castro, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), que organizou a ida de uma caravana de mulheres até a Marcha das Margaridas, explica que, em 2015,  foram 207 milhões de litros de agrotóxicos utilizados só em Mato Grosso. Em julho, a federação promoveu no estado um curso de formação sobre os impactos do agrotóxico voltado para indígenas, quilombolas, assentadas e agricultoras familiares, que receberam informações para serem multiplicadores da luta contra o agrotóxico.

E uma de suas grandes preocupações do grupo é quanto à contaminação da água. Uma investigação conjunta realizada pelos sites Repórter Brasil, Public Eye e Agência Pública constatou que as águas consumidas pelos brasileiros entre os anos de 2014 a 2017 contêm mais de 27 tipos de agrotóxicos. No portal “Por trás do alimento”, é possível visualizar por cidade a quantidade de agrotóxicos presente na água daquele município. Cuiabá, capital de Mato Grosso está entre os municípios onde foram encontradas as contaminações múltiplas – aquelas em que um conjunto de agrotóxicos se mostraram presentes nas amostragens.

Essa constatação motivou o Ministério Público do Estado (MPE/MT) a instaurar um procedimento preparatório em março deste ano para apurar a presença de agrotóxicos na água fornecida pela rede pública de abastecimento na capital. A empresa concessionária, Águas Cuiabá, lançou uma nota colocando-se à disposição do Ministério Público para apresentar todas as informações a serem solicitadas pelo órgão acerca da qualidade da água distribuída no município.

A contaminação das águas de rios como Juruena e Paraguai já atravessa as fronteiras brasileiras, chegando a Bolívia, Paraguai e Argentina. O estudo das águas do Rio Paraguai foi realizado em 2017 pelo Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador (Neast) do Instituto de Saúde Coletiva da UFMT, porém, voltou à tona, após a mortandade de peixes em março deste ano, o que chamou a atenção do Ministério Público estadual. O órgão solicitou a coleta de amostras da água para verificar as causas do dano ambiental. O resultado das análises ainda não foi apresentado.

Julieta Paredes, indígena Aymara da Bolívia, e uma das propagadoras do feminismo comunitário, um movimento que emerge das práticas ancestrais de construção comunitária e resistência ao patriarcado e ao colonialismo, afirma que, no país vizinho, a preocupação tem movimentado grupos organizados em prol da defesa do meio ambiente. Julieta explica que as mulheres que debatem o feminismo comunitário estão presente nas discussões acerca dos trangênicos e agrotóxicos na terra de Santa Cruz (Amazônia): “Não comemos soja, cana de açúcar também não é tão importante. Algumas bases do Governo querem que aceitemos os trangênicos, dizem que não são tão maus. Mas não acreditamos nisso”.

Já em Mato Grosso um documentário sobre o uso dos agrotóxicos está sendo preparado pelo cineasta indígena Kamikia Kisedje, do povo Kĩsêdjê, localizado na região de Querência, a 912 km de Cuiabá, em Mato Grosso. A história narra a presença do cultivo de soja na região da terra indígena Wawi, do povo Kĩsêdjê.  “A comunidade percebeu doenças na pele, mudança no cheiro e no gosto da água do rio Paca e do peixe, o que fez com que a gente se mudasse para o outro local da aldeia”, explica ele. Kamikia informa ainda que foram coletadas amostras da água, e os dados devem ser divulgados ainda neste segundo semestre. Por outro lado, os Kisedje estão fazendo história, mostrando ao mundo uma forma de geração de renda baseada na relação saudável com a natureza. A associação indígena Kĩsêdjê (AIK), que representa o povo, foi vencedora do Prêmio Equatorial 2019, dado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para soluções de desenvolvimento sustentável locais e indígenas, pela produção de óleo de pequi na Terra Indígena Wawi.

Josefa Aparecida Francisco, a dona Cida, é outra militante da alimentação saudável no estado. O trabalho voluntário desenvolvido por ela consiste em catalogar e produzir mudas de sementes caboclas. Aparecida vive nas imediações de Cuiabá, onde tem um sítio, e foi uma das 180 mulheres de Mato Grosso que deixaram suas casas para protestar em Brasília e manifestar a sua indignação com relação à monocultura e ao uso intensivo de agrotóxico no estado:

“Eu sou filha e neta de agricultoras, sou uma animadora para o resgate de sementes crioulas. Busco conscientizar as pessoas sobre a questão dos agrotóxicos, pois sei dos riscos de contaminação para a mim e para as futuras gerações”.



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