“Risco de trigo transgênico contaminar outras variedades é inevitável”, diz bióloga

Por Fernanda Paixão
Do Brasil de Fato

O debate sobre o trigo transgênico HB4, desenvolvido na Argentina e em estado de avaliação no Brasil, voltou ao foco nestas últimas semanas.

Em plenária realizada nesta quinta-feira (10), a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) pautou o tratamento do trigo HB4, e havia expectativa de que a votação ocorresse.

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A comissão decidiu, porém, “solicitar informações adicionais à empresa requerente para prosseguimento das análises e discussões na Comissão”. 

O tema voltará a ser tratado pela Comissão na próxima plenária, marcada para agosto. Segundo Naiara Bittencourt, advogada na organização Terra de Direitos e integrante da Campanha contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o debate ainda pode se prolongar.

“O pedido de avaliação pela CTNBio é retomado em todas as reuniões mensais, que são responsáveis por aprovar essas variedades”, afirma, destacando que o próximo passo da aprovação para comercialização seria o cultivo.

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A possível aprovação de comercialização da tecnologia seria o primeiro trigo transgênico comercializado no mundo.

O alerta parte de organizações ambientalistas e do setor comercial contrário à iniciativa, que têm se articulado entre Brasil e Argentina.

Em um ofício enviado esta semana à CTNBio, ao Ministério Público do Trabalho e ao Ministério Público Federal, representantes de organizações ambientais solicitam uma nova audiência pública, já que a audiência realizada em outubro do ano passado pela própria CTNBio apresentou informações desvirtuadas ou diretamente falsas.

Um caminho sem volta

O trigo HB4 é modificado geneticamente para resistir à seca e ao glufosinato de amônio, herbicida cancerígeno e proibido na União Europeia.

A campanha contra o trigo transgênico tem sido resultado da articulação entre Argentina e Brasil, que inclui a sociedade civil e empresas do setor de panificados e moagem.

A tentativa é de visibilizar os efeitos do trigo transgênico e frear sua aprovação enquanto há tempo. Uma vez aprovado, o trigo transgênico é um caminho sem volta – assim como já aconteceu com o milho, a soja e o algodão.

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“A possibilidade de que o trigo transgênico contamine as outras variedades de trigo é um risco quase inevitável”, explica a bióloga Alicia Massarini, integrante do coletivo de cientistas contrários ao HB4, do coletivo Trigo Limpio.

“É impossível que as sementes não se misturem no processo de armazenamento e transporte. No campo também, porque, mesmo que o trigo seja uma planta autógama, que se fecunda a si mesma, uma pequena proporção de cerca de 3% pode experimentar polinização cruzada.”

Além do caráter invasor do trigo transgênico, e também como consequência disso, seria inevitável presença em todos os alimentos com base em farinha e tão cotidianos como são os pães e as massas.  

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“O Brasil está aprovando esse trigo transgênico confiando no processo de aprovação realizado na Argentina é completamente deficitário em termos de avaliação de riscos”, afirma Fernando Cabaleiro, advogado da ONG Naturaleza de Derechos, na Argentina, ressaltando que, ao contrário do Brasil, a Argentina não adere ao Protocolo de Cartagena.

“Os critérios mais importantes estabelecem que as avaliações devem ser feitas nos ambientes onde serão aplicados e que cada caso deve ser avaliado individualmente, com base em informações científicas disponíveis. No nosso sistema, o trigo não é avaliado em todos os biomas, mas nos escolhidos arbitrariamente pelas empresas. Também não se analisam os efeitos sinérgicos, de quando há dois genes que conferem distintas tolerâncias ou características, como, nesse caso, são os genes de tolerância ao glufosinato e à seca.”

Desvio de informações

Em outubro do ano passado, uma audiência pública da CTNBio recebeu representantes da Bioceres, empresa de biotecnologia que financiou o trigo HB4. Na ocasião, reforçaram a característica de resistência à seca do trigo HB4, e reforçaram que o herbicida glufosinato de amônio não acompanharia a tecnologia, uma vez que o agrotóxico “não estaria autorizado na Argentina”.

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O registro em vídeo da audiência, transmitido pelo Brasil de Fato, foi retirado do ar pela CTNBio, e seu conteúdo já não está mais disponível para o público.

Apesar do desvio de informação na audiência pública, o próprio site da Bioceres oferece a quantidade de glufosinato de amônio indicada para o cultivo, na página informativa sobre a tecnoogia HB4. Hoje, no entanto, essa informação passou a ser omitida no site.


Página da empresa Bioceres sugeria 2 litros por hectárea para cultivo do trigo HB4; informação foi omitida hoje do site. / Bioceres

Assim como ressaltou a própria Rachel Chan, pesquisadora que liderou o desenvolvimento do trigo HB4, em entrevista ao Brasil de Fato, a característica resistente ao agrotóxico do trigo geneticamente modificado é mascarada no discurso das empresas interessadas em vender e impulsionar a tecnologia. Mencionam o gene como um simples “marcador” que distingue este trigo das demais variedades.

No entanto, o fator de resistência aos agrotóxicos é determinante nestes que serão os alimentos no prato da população. María del Carmen Seveso, médica na província de Chaco e integrante da Rede de Médicos de Povos Fumigados, na Argentina, acompanha há anos casos derivados de contato com a fumigação de herbicidas.

“Todos esses herbicidas inibem enzimas das plantas, que se chama, neste caso, a glutamina sintetase, que sintetiza o aminoácido glutamina”, afirma.

“A glutamina é importante porque serve para o metabolismo, indispensável para a limpeza do amoníaco. Um nível alto de amoníaco produz uma toxicidade neurológica que está associada com o Alzheimer, ao autismo nas crianças e em casos de má-formação”, explica.

Além disso, a resistência à seca seria um sinal do próprio modelo agroindustrial, como aponta Cabaleiro: “A aprovação desse trigo se explica pela lógica do modelo agroindustrial de gerar uma dependência aos pacotes tecnológicos. Porque, se analisa, esse trigo se apresenta com característica de resistência à seca, mas resulta que a seca é produto do próprio modelo agroindustrial, em sua totalidade, com a desflorestação, com o uso de fertilizante sintético, e que tem incidência significativa na crise climática.” 

As campanhas contra o trigo transgênico HB4 podem ser acompanhadas nas redes sociais pelas 16-chave “Com nosso pão, não”e “con nustro pan, no” e por sites de organizações integrantes no Brasil e na Argentina.

Edição: Vivian Virissimo

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