Usina Cambahyba é ocupada pelo MST após Justiça determinar desapropriação no RJ

Do Brasil de Fato

Na madrugada desta quinta-feira (24), 300 famílias organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam uma das fazendas que pertencem ao Complexo da Cambahyba, da antiga Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. A ação acontece cerca de um mês após a Justiça decretar a desapropriação de três fazendas do local, chamadas Cambahyba, Saquarema e Flora, para fins de reforma agrária.

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O território é alvo de disputa há cerca de 21 anos, a partir de ocupações organizadas pelo MST. A última delas, batizada de acampamento Luís Maranhão, foi estruturada em 2012 e permaneceu ativa até meados de 2019. 

O MST divulgou um vídeo nas redes sociais do exato momento do rompimento das cercas de uma das fazendas da Usina Cambahyba.

🚩✊🏾 MST no Rio de Janeiro ocupa uma das fazendas do Complexo Cambahyba.

Confira o momento em que famílias Sem Terra ocuparam, na manhã de hoje (24/6), uma das fazendas do Complexo Cambahyba, no Rio de Janeiro.

Assista e compartilhe!#TodosPelaReformaAgrária pic.twitter.com/DDavzvjq0Q — MST Oficial (@MST_Oficial) June 24, 2021

Desta vez, a ocupação foi batizada de Acampamento Cícero Guedes, membro da direção estadual do MST, que foi executado dentro da usina, com 10 tiros na cabeça, em 25 de janeiro de 2013. De acordo com o MST, a ocupação está sendo construída com o apoio de diversas organizações, sindicatos, entidades de direitos humanos, lideranças religiosas, partidos políticos e movimentos populares do município de Campos.

Ainda segundo o MST explicou em nota, as famílias que participam da ocupação são oriundas de diversos territórios de resistência da região, como os agricultores de São João da Barra despejados do Porto do Açu, trabalhadores do corte de cana de Floresta, membros da Ocupação Nova Horizonte de Guarus e integrantes do antigo acampamento Luís Maranhão.

O Complexo da Cambahyba é formado por sete fazendas que somam cerca de 3.500 hectares. Em 1998, a área foi decretada pelo Governo Federal para fins de reforma agrária. Cinco anos antes, em 1993, a usina que funcionava no local havia sido desativada após ir à falência.

Anos mais tarde, em 2012, o local foi considerado improdutivo pela Justiça. Na época, a área pertencia a Heli Ribeiro Gomes, político fluminense eleito deputado federal, em 1958, e empossado vice-governador biônico do Rio de Janeiro, em 1968. Até a determinação da desapropriação pela Justiça, no último mês de maio, o registro do terreno estava em nome da empresa AVM Construções. 

Em nota, o MST destacou que a história da Usina Cambahyba é a expressão da formação da grande propriedade e da exploração da força de trabalho e do meio ambiente no Brasil. No texto, o movimento também afirma que não foram poucas as ocupações e as mobilizações para que o direito à desapropriação das terras da Cambahyba se realizasse.

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“Ocupamos Cambahyba pela memória daqueles que foram torturados, assassinados na ditadura empresarial-militar. Ocupamos para exigir justiça para Cícero Guedes, grande liderança do MST que lutou ativamente para ver as famílias trabalhadoras com melhores condições de vida. Ocupamos para exigir democracia, terra para produzir comida saudável para todas as trabalhadoras e trabalhadores pobres do campo e da cidade que vem sofrendo as consequências da pandemia de covid-19 negligenciada pelo governo”, diz trecho da nota. 

História

A Usina Cambahyba tem sua trajetória entrelaçada com a história recente do país. Estruturada como uma usina de produção de açúcar, o local foi utilizado na ditadura militar para incinerar corpos de presos políticos e opositores do regime. 

Em 2014, o ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Cláudio Guerra, detalhou em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV) ter incinerado 12 corpos nos fornos da usina, dentre eles, Ana Rosa Kucisnky e seu marido, Wilson Silva, Fernando Santa Cruz e Luís Maranhão, desaparecidos em 1974. A versão já havia sido contada no livro “Memórias de uma guerra suja” escrito por Guerra e lançado em 2011. 

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Em reação ao depoimento de Guerra, em 2012, o MST ocupou o local pela segunda vez – uma primeira ocupação já havia sido feita em 2000 com ex-empregados da Usina, que não receberam seus direitos trabalhistas com o encerramento das atividades no local.

Um ano depois, em 2013, Cícero Guedes, militante do MST, foi assassinado na estrada próxima à ocupação. Cícero, que já tinha sido assentado em 2002 no assentamento Zumbi dos Palmares, também localizado em Campos dos Goytacazes, continuava sua militância na luta pela reforma agrária e contribuiu ativamente na ocupação da usina.

Fonte: BdF Rio de Janeiro

Edição: Mariana Pitasse



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