Com o lema “Territórios de memória, fé e resistência”, o evento celebra a primeira década e meia de mobilização contra o uso de agrotóxicos e em defesa da vida no campo.
Da Campanha contra os Agrotóxicos e pela vida
Entre os dias 21 e 25 de abril, o Vale do Jaguaribe, no Ceará, torna-se o epicentro da resistência camponesa no Brasil. A XV Semana Zé Maria do Tomé reúne comunidades, movimentos sociais e pesquisadores para reafirmar uma bandeira que, há 15 anos, ecoa com a mesma urgência: “Chuva de Veneno Nunca Mais”.
Nesta edição, o tema “Territórios de memória, fé e resistência: lutar pela terra, cuidar da vida e semear saúde” sintetiza a trajetória de um povo que aprendeu a transformar a dor do assassinato de uma liderança em um projeto coletivo de agroecologia e justiça socioambiental.
O Legado de Zé Maria: Do Crime à Resistência
A história da Semana remete a 21 de abril de 2010. Conforme recorda a memória histórica preservada em Reportagem do Brasil de Fato, José Maria Filho, conhecido como Zé Maria do Tomé, foi executado com mais de 20 tiros após denunciar incansavelmente os impactos dos agrotóxicos na saúde da população de Limoeiro do Norte, especialmente em crianças.
Zé Maria não era apenas um ambientalista; era um defensor do território que se opunha à pulverização aérea promovida pelo agronegócio na Chapada do Apodi. Seu martírio deu origem à Lei Zé Maria do Tomé, que baniu a pulverização aérea no Ceará — uma vitória jurídica pioneira que hoje sofre tentativas de retrocesso.
Destaques da Programação: Fé e Ciência Popular
A XV edição intercala momentos de mística religiosa com o rigor da produção científica acadêmica, demonstrando que a luta do Vale é também uma luta pelo conhecimento.
No dia 21 de abril, a tradicional Romaria da Chapada abre o evento na comunidade do Tomé (Quixeré) e também celebra o aniversário do Assentamento Zé Maria do Tomé, o primeiro território irrigado do país gerido por camponeses, símbolo máximo da reforma agrária na região.
Já nos dias 22 e 23 a programação gira em torno de debates acadêmicos diversos realizados na UECE/FAFIDAM e no IFCE. Ambos serão palcos de lançamentos literários cruciais, como as obras das professoras Camila Dutra e Denise Elias, que desconstroem a “fábula” do agronegócio e analisam as desigualdades socioespaciais.

Bem como, de um dos momentos políticos mais fortes, que será a divulgação do resultado do plebiscito popular pelas bandeiras “Revogação já!” e “Chuva de Veneno Nunca Mais”, reforçando a pressão popular sobre o poder público.
Ainda nesse âmbito de debates, no dia 22 de abril, o Observatório de Injustiças Ambientais do Baixo Jaguaribe realiza a atividade “Troca de Saberes: Diálogos e Práticas”. A iniciativa reúne comunidades camponesas, pesquisadores, movimentos sociais e instituições públicas em um espaço de escuta, diálogo e compartilhamento de experiências sobre os impactos socioambientais enfrentados na região.
O penúltimo dia de atividades, 24 de abril, é marcado por debates sobre a saúde do trabalhador. No Acampamento Zé Maria do Tomé, palestras discutirão a relação entre o câncer e o trabalho agrícola, acompanhadas pelo lançamento do documentário “Chuva de Veneno”.
A Feira da Esperança
Para encerrar a jornada, a VI Feira Regional da Agroecologia, Reforma Agrária e Agricultura Familiar ocupará Limoeiro do Norte nos dias 24 e 25. Mais do que um espaço de comercialização, a feira é a prova viva de que a produção de alimentos saudáveis sem veneno é possível e economicamente viável.
Organizada pelo Movimento 21 de Abril, a Semana Zé Maria do Tomé prova que, embora tenham tentado calar uma voz em 2010, acabaram semeando milhares de outras por todo o Vale do Jaguaribe.
